Ler o enunciado em texto
TEXTO I
Ave Maria das quebradeiras
Ave Maria palmeira que sofre desgraça
Malditos derruba, queima, devasta
Bendito é teu fruto que serve de alimento
E no leito da terra ainda dá o sustento
Santa mãe brasileira, mãe de leite verdadeiro
Em sua hora derradeira, rogai por todas nós quebradeiras.
LIMA, M. S. apud GIRALDIN, O. O universo cultural do babaçu no Bico do
Papagaio. In: SANTOS, A. M.; MUNIZ, C. P. L. Babaçu: universo cultural da
palmeira. Palmas: Iphan, 2016 (adaptado).
TEXTO II
A líder do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu, Maria do Socorro Lima, compôs a Ave Maria das quebradeiras com base em um episódio que ela vivenciou: certa feita, estava em sua casa quando um vaqueiro chegou em uma moto e lhe pediu que o acompanhasse, pois queria lhe mostrar uma coisa que ele havia encontrado. Após percorrer uma grande distância, parou no meio do babaçual, onde mostrou a ela uma palmeira que havia sido derrubada com uma motosserra. A palmeira estava totalmente seccionada e estendida no solo, mas ainda nessa posição ela conservou energia e teria levantado a “cabeça”, permitindo que o cacho desabrochasse.
SANTOS, A. M.; MUNIZ, C. P. L. Babaçu: universo cultural da palmeira.
Palmas: Iphan, 2016 (adaptado).
A cosmovisão ecológica presente nos textos simboliza a preocupação pela
A proteção das indústrias locais.
B contaminação das vias fluviais.
C extinção da agricultura familiar.
D preservação da cultura nativa.
E manutenção da pecuária extensiva.
Gabarito oficial
D
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Cultura e identidade: interpretar a apropriação de uma oração católica pelas quebradeiras de coco babaçu.
Resolução passo a passo
- Repare na forma do Texto I: é uma Ave-Maria reescrita. “Bendito é teu fruto”, “rogai por todas nós” — a oração cristã foi apropriada e passou a falar de uma palmeira.
- Veja quem é a santa nessa reescrita: “Santa mãe brasileira, mãe de leite verdadeiro”. A palmeira é a mãe que sustenta — “teu fruto que serve de alimento”, “no leito da terra ainda dá o sustento”.
- Agora o Texto II: a palmeira seccionada pela motosserra “conservou energia e teria levantado a cabeça, permitindo que o cacho desabrochasse”. Natureza e resistência humana viram a mesma imagem.
- Sagrado, língua e modo de vida fundidos em torno do babaçu: o que se defende, quando se canta essa Ave-Maria, é a cultura nativa ameaçada pelos “malditos derruba, queima, devasta” — alternativa D.
Alternativa por alternativa
- A
proteção das indústrias locais.
Errada. Indústria é justamente o que ameaça: a motosserra do Texto II e os verbos “derruba, queima, devasta” do Texto I representam a atividade que destrói o babaçual, não algo a proteger.
- B
contaminação das vias fluviais.
Errada. Nenhum dos textos menciona rios, água ou poluição. A ameaça descrita é o desmatamento da palmeira, feito com motosserra e fogo.
- C
extinção da agricultura familiar.
Errada. As quebradeiras não são agricultoras: elas vivem do extrativismo do coco babaçu, colhendo o fruto de uma palmeira nativa. O modo de vida em risco é outro.
- D
preservação da cultura nativa.
Correta. Ao vestir uma oração católica com a palmeira de babaçu, chamando-a de “santa mãe brasileira” e pedindo que rogue “por todas nós quebradeiras”, o texto funde religião, trabalho e natureza. Defender a palmeira é defender toda essa cultura nativa contra quem derruba, queima e devasta.
- E
manutenção da pecuária extensiva.
Errada. A pecuária extensiva é uma das causas históricas da derrubada do babaçual — está do lado do “derruba, queima, devasta”, e não do que os textos pedem que se preserve.