Pular para o conteúdo
Concurso de Bolsas

Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Questão 45 do ENEM 2025 resolvida

Fragmento de Nei Lopes: iniciada no culto a Aziri Tobôci, Honorata deixa de ser quase mendiga e se torna baiana de tabuleiro, quituteira requisitada e fornecedora de trajes ao teatro musicado.

Questão 45 do ENEM 2025, aplicação regular, como saiu no caderno de prova
ENEM 2025 · aplicação regular · caderno 1 · azul · questão 45
Ler o enunciado em texto

Competentemente iniciada e dedicada ao culto de Aziri Tobôci, agora Honorata começa a ver novos horizontes em sua vida. Tomada, agora, de um espírito de iniciativa incomum, totalmente diferente do torpor em que vivia, passa a cuidar mais da aparência, a vestir trajes mais alvos, a adornar-se com joias de ouro, mesmo baratas, a caprichar no ojá que lhe envolve graciosa e artisticamente a cabeça. A quase mendiga de antes é agora uma bela e perfumada baiana de tabuleiro, atraindo uma boa freguesia com seus acarajés, abarás, beijus, cuscuzes, bolinhos de tapioca... iguarias de fina e esmerada feitura.

Em pouco tempo, começa a ser, também, acreditada e requisitada como quituteira e banqueteira. A culinária baiana começa a chegar às mesas dos brancos abastados. Vatapá, caruru, xinxim, moqueca já não são comidas de escravo, de negro africano; os africanos são cada vez mais raros. [...]

E, assim como chega às mesas ricas, a Bahia já começa a chegar também ao teatro musicado. Então, as cômicas, no afã de personificarem, com perfeição, as negras minas das ruas, com sua altivez, elegância e insolência, vão bater à porta de Honorata, em busca dos mais rendados cabeções e batas, dos camisus mais sensuais, dos mais coloridos panos da costa, dos balangandãs, pulseiras e colares mais reluzentes.

LOPES, N. Mandingas da mulata velha na cidade nova.

Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009. Na descrição da personagem, observa-se uma mudança de perfil que, de acordo com esse fragmento, reflete a

A valorização das religiões de matrizes africanas.
B ancestralidade como fator de resgate da autoestima.
C representação de elementos da cultura africana na arte.
D incorporação da vestimenta tradicional no uso cotidiano.
E mudança na percepção da sociedade sobre os hábitos alimentares.

Gabarito oficial

B

Caderno de referência do INEP.

O que a questão cobra

Literatura afro-brasileira: relacionar a mudança de perfil da personagem à sua raiz ancestral.

Resolução passo a passo

  1. Marque o ponto de virada, que está na primeira linha: “Competentemente iniciada e dedicada ao culto de Aziri Tobôci, agora Honorata começa a ver novos horizontes”. A mudança começa na iniciação.
  2. Veja o antes e o depois. Antes: “o torpor em que vivia”, “a quase mendiga de antes”. Depois: cuida da aparência, usa trajes alvos, joias, capricha no ojá que lhe envolve a cabeça.
  3. Repare que tudo o que a reergue vem da herança africana: o culto, o ojá, os acarajés e abarás, os panos da costa, os balangandãs. Não é uma mudança qualquer — é um reencontro com a própria origem.
  4. O resultado é “uma bela e perfumada baiana de tabuleiro”, requisitada como quituteira e banqueteira. A ancestralidade resgata a autoestima da personagem — alternativa B.

Alternativa por alternativa

  • A

    valorização das religiões de matrizes africanas.

    Errada. O culto é o gatilho da transformação, mas o fragmento não discute reconhecimento ou valorização social das religiões de matriz africana. O foco está no que muda em Honorata.

  • B

    ancestralidade como fator de resgate da autoestima.

    Correta. A virada de Honorata começa com a iniciação no culto de Aziri Tobôci, e tudo o que a reconstrói vem da herança africana: o ojá na cabeça, os panos da costa, os acarajés e abarás. O reencontro com a ancestralidade tira a personagem do torpor e devolve a ela orgulho e lugar social.

  • C

    representação de elementos da cultura africana na arte.

    Errada. A chegada da Bahia ao teatro musicado é o desdobramento final, no último parágrafo, e as cômicas buscam ali apenas o figurino. A mudança de perfil da personagem já se completou antes disso.

  • D

    incorporação da vestimenta tradicional no uso cotidiano.

    Errada. Os trajes e adornos (ojá, panos da costa, balangandãs) são sinais da transformação, não a causa dela. Além disso, não se trata de incorporar uma vestimenta nova: ela retoma o que é seu.

  • E

    mudança na percepção da sociedade sobre os hábitos alimentares.

    Errada. A entrada do vatapá e do caruru nas mesas dos brancos abastados é consequência do sucesso de Honorata como quituteira. O comando pede o que explica a mudança dela, e isso está na iniciação.

Concurso de Bolsas