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Andar com fé
Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Gravada por Gilberto Gil no seu LP U m banda um
(WEA, 1982) (fragmento).
COMENTÁRIO: A fé e a “faia” — O uso do “faiá” é assumido com a intenção de legitimar uma forma popular contra a hegemonia do bem falar das elites. É uma homenagem ao linguajar caipira, ao modo popular mineiro, paulista, baiano — brasileiro, enfim — de falar “falhar” no interior. É quase como se a frase da canção não pudesse ser verdade se o verbo fosse pronunciado corretamente — o que seria um erro… Outro dia cometeram esse “deslize” na Bahia, ao utilizarem a expressão na promoção de uma campanha de cinto de segurança. Nos outdoors, saiu: “A fé não costuma falhar” (a propaganda associava o cinto à fitinha do Senhor do Bonfim). Eu deixei, mas achei a correção desnecessária.
GILBERTO GIL. Todas as letras. São Paulo: Cia. das Letras, 2022. No comentário de Gilberto Gil sobre o uso de “faiá”, o compositor
A critica o modo de falar das elites.
B problematiza a linguagem popular brasileira.
C aponta o desvio da norma-padrão na peça publicitária.
D contesta o uso de letras de canção fora do cenário musical.
E defende a adequação da variedade não padrão na letra da canção.
Gabarito oficial
E
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Variação linguística e adequação: entender a defesa que o compositor faz da forma popular na canção.
Resolução passo a passo
- Leia o que Gil diz da forma escolhida: “é assumido com a intenção de legitimar uma forma popular contra a hegemonia do bem falar das elites” — e é uma “homenagem ao linguajar caipira”.
- Veja o argumento decisivo: “é quase como se a frase da canção não pudesse ser verdade se o verbo fosse pronunciado corretamente”. A forma popular é o que dá verdade ao verso.
- Confirme pelo contraexemplo que ele mesmo dá: nos outdoors da Bahia escreveram “A fé não costuma falhar” e ele achou “a correção desnecessária”.
- Ou seja, ele não condena a norma-padrão nem ataca ninguém: defende que, naquele contexto, a variedade não padrão é a adequada — alternativa E.
Alternativa por alternativa
- A
critica o modo de falar das elites.
Errada. A expressão “hegemonia do bem falar das elites” descreve a situação contra a qual a escolha se afirma. O alvo do comentário é valorizar o falar popular, não atacar o modo de falar de um grupo.
- B
problematiza a linguagem popular brasileira.
Errada. Problematizar seria pôr a linguagem popular em questão. Gil faz o contrário: ele a legitima, chama-a de homenagem e diz que sem ela a frase perderia verdade.
- C
aponta o desvio da norma-padrão na peça publicitária.
Errada. A peça publicitária usou a forma padrão (“falhar”). Não houve desvio a apontar — o que Gil diz é que aquela correção era desnecessária.
- D
contesta o uso de letras de canção fora do cenário musical.
Errada. Ele comenta o uso da frase em uma campanha e conclui: “eu deixei”. Não há qualquer contestação ao emprego da letra fora da música.
- E
defende a adequação da variedade não padrão na letra da canção.
Correta. Gil defende que “faiá” é a forma certa naquele contexto: legitima o linguajar popular, considera-o uma homenagem e afirma que a frase não teria a mesma verdade com o verbo “corrigido”. É uma defesa da adequação da variedade não padrão à canção.