Ler o enunciado em texto
Longamente lhe expus a minha fraqueza mental, a impossibilidade de compreender as palavras difíceis, sobretudo na ordem terrível em que se juntavam. Se eu fosse como os outros, bem; mas era bruto em demasia, todos me achavam bruto em demasia.
Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos que liam no céu, percebiam tudo quanto há no céu. […] Ora, se eles enxergavam coisas tão distantes, por que não conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos meus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia reuni-las e formar palavras?
Matutei na lembrança de Emília. Eu, os astrônomos, que doidice! Ler as coisas do céu, quem havia de supor?
E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas já percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam, vagarosamente me penetravam a inteligência espessa. Vagarosamente.
Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes.
RAMOS, G. Infância. Rio de Janeiro: Record, 2005. As reflexões do narrador-personagem, no desfecho da narrativa, implicam a compreensão da
A dificuldade de enfrentar os próprios medos.
B complexidade do processo educacional na infância.
C importância da interação com elementos da natureza.
D mudança de visão de mundo promovida pela literatura.
E necessidade de estudos para a observação dos astros.
Gabarito oficial
D
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Literatura — leitura de narrativa memorialística: entender o que muda no narrador entre o começo e o fim do trecho.
Resolução passo a passo
- Veja de onde ele parte: expõe “a minha fraqueza mental, a impossibilidade de compreender as palavras difíceis” e repete que “todos me achavam bruto em demasia”.
- Emília usa os astrônomos como argumento: se há gente que lê o céu, por que ele não leria a página diante dos olhos? O argumento o move — “tomei coragem”.
- Acompanhe o que a leitura faz com ele: “Personagens diminutas cresciam, vagarosamente me penetravam a inteligência espessa”. O livro entra, e algo se abre.
- E leia o desfecho: ele não desvendará o céu, mas “preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas”. A literatura lhe deu um jeito novo de olhar o mundo — alternativa D.
Alternativa por alternativa
- A
dificuldade de enfrentar os próprios medos.
Errada. O obstáculo do menino não é o medo, e sim a convicção de que era incapaz. E ele não fracassa: consegue ler e sai transformado.
- B
complexidade do processo educacional na infância.
Errada. A escola e os adultos aparecem como pano de fundo — são eles que o chamam de bruto. O trecho não analisa o processo educacional: acompanha o efeito de um livro sobre um leitor.
- C
importância da interação com elementos da natureza.
Errada. A natureza entra apenas dentro do enredo lido (lobos, floresta, tempestade) e no quintal onde ele se esconde. Não é a interação com ela que provoca a mudança, e sim a leitura.
- D
mudança de visão de mundo promovida pela literatura.
Correta. O menino que se julgava incapaz descobre, ao ler, uma sensibilidade nova: passa a se comover com homens perseguidos e crianças abandonadas. A literatura reorganiza o modo como ele vê o mundo.
- E
necessidade de estudos para a observação dos astros.
Errada. Os astrônomos são um argumento usado por Emília para convencê-lo, e ele próprio conclui que não desvendará o céu. A astronomia é metáfora, não tema.