Ler o enunciado em texto
O cara que corta cabelo, inclusive, pode nos jogar os búzios, caso desejemos; pode, também, colocar a cerâmica da nossa casa, caso precisemos; e pode, ainda, pegar um cavaquinho e um microfone para nos mostrar o samba de verdade, caso o desconheçamos. É que ele sabe fazer várias coisas da vida, e está sempre a aprender coisas novas, não por boniteza, mas por precisão, como diria Guimarães Rosa. Ele está em construção, assim como eu, que tento concluir o ensino médio aos trinta e dois anos, também estou em construção. Na verdade, todos por aqui estão em construção. Não só todos, como tudo. Por todo lado o que vemos, o que mais se vê são casas de alvenaria erguidas até a metade. Mesmo paredes completas esperam reboco. Mesmo paredes rebocadas esperam pintura. Nada nunca está pronto. Ninguém nunca está pronto.
FALERO, J. Mas em que mundo tu vive?: crônicas.
São Paulo: Todavia, 2021.
A comparação das interações sociais com o cotidiano das pessoas.
B exaltação da habilidade de adaptação do trabalhador da periferia.
C construção de um paralelo entre os sujeitos e o espaço periférico urbano.
D valorização do pensamento de um famoso escritor da literatura brasileira.
E apresentação de problemas de urbanização em grandes cidades brasileiras.
Gabarito oficial
C
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Estratégia de construção textual: identificar o procedimento que liga as duas metades da crônica.
Resolução passo a passo
- A primeira metade fala de pessoas. O barbeiro joga búzios, assenta cerâmica, toca cavaquinho — “ele está em construção, assim como eu… todos por aqui estão em construção”.
- Repare na frase-dobradiça: “Não só todos, como tudo”. Aqui o texto salta das pessoas para o lugar.
- A segunda metade fala do espaço, com o mesmo vocabulário: “casas de alvenaria erguidas até a metade. Mesmo paredes completas esperam reboco. Mesmo paredes rebocadas esperam pintura”.
- O fecho amarra os dois lados na mesma frase: “Nada nunca está pronto. Ninguém nunca está pronto.” É a construção de um paralelo entre os sujeitos e o espaço periférico — alternativa C.
Alternativa por alternativa
- A
comparação das interações sociais com o cotidiano das pessoas.
Errada. O texto não compara interações sociais com cotidiano — são coisas da mesma ordem. A comparação que ele monta é entre pessoas e casas.
- B
exaltação da habilidade de adaptação do trabalhador da periferia.
Errada. A versatilidade do barbeiro abre a crônica, mas o autor diz que ela vem “não por boniteza, mas por precisão” — ou seja, por necessidade. É o ponto de partida, não a tese.
- C
construção de um paralelo entre os sujeitos e o espaço periférico urbano.
Correta. O texto aplica a mesma imagem — estar em construção — às pessoas e às casas da periferia, e fecha unindo as duas pontas: “Nada nunca está pronto. Ninguém nunca está pronto.”
- D
valorização do pensamento de um famoso escritor da literatura brasileira.
Errada. Guimarães Rosa é citado em uma expressão de passagem (“como diria Guimarães Rosa”). Uma referência rápida não é a estratégia que organiza o texto.
- E
apresentação de problemas de urbanização em grandes cidades brasileiras.
Errada. Não há denúncia de problemas urbanos. As casas pela metade são apresentadas como retrato de um modo de viver, e não como falha de urbanização a ser corrigida.