Ler o enunciado em texto
Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve? Por que, realmente, como é que se escreve? que é que se diz? e como dizer? e como é que se começa? e que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranquilo? Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende ao escrever. Porque, fora das horas em que escrevo, não sei absolutamente escrever. Será que escrever não é um ofício? Não há aprendizagem, então? O que é? Só me considerarei escritora no dia em que eu disser: sei como se escreve.
LISPECTOR, C. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. Nessa crônica, os questionamentos da autora evidenciam uma
A reflexão sobre o ato de escrever.
B preferência pela forma de escrita tradicional.
C angústia decorrente do empobrecimento da escrita.
D insatisfação com o resultado final da sua produção escrita.
E resistência a impressões surgidas ao acaso no processo de escrita.
Gabarito oficial
A
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Leitura de crônica: identificar o que os questionamentos da autora revelam.
Resolução passo a passo
- Conte as perguntas do trecho: “como é que se escreve?”, “que é que se diz?”, “como dizer?”, “como é que se começa?”, “que é que se faz com o papel em branco?”, “Será que escrever não é um ofício?”, “Não há aprendizagem, então?”.
- Repare no objeto de todas elas: não é o texto que ela escreveu, é o ato de escrever. Ela não avalia resultado — investiga processo.
- Veja a resposta que ela mesma dá e considera insuficiente: “Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo”. Escrever só se aprende escrevendo.
- E o fecho confirma que é reflexão em aberto: “Só me considerarei escritora no dia em que eu disser: sei como se escreve”. A crônica é uma reflexão sobre o ato de escrever — alternativa A.
Alternativa por alternativa
- A
reflexão sobre o ato de escrever.
Correta. Todo o texto gira em torno de uma pergunta sobre o próprio fazer: como se escreve, se há aprendizagem, se é ofício. É metalinguagem — a escrita pensando sobre si mesma.
- B
preferência pela forma de escrita tradicional.
Errada. Nenhuma forma de escrita é comparada a outra. A autora não discute estilo, escola nem técnica: discute o mistério de começar.
- C
angústia decorrente do empobrecimento da escrita.
Errada. Não há juízo sobre a qualidade da escrita, nem dela nem de ninguém. A palavra “angústia” também não cabe: o tom é de espanto curioso, não de lamento.
- D
insatisfação com o resultado final da sua produção escrita.
Errada. Ela não comenta nenhum texto pronto. O que a intriga acontece antes do resultado — diante do papel em branco.
- E
resistência a impressões surgidas ao acaso no processo de escrita.
Errada. Ao contrário: ela diz ser “a pessoa que mais se surpreende ao escrever”. O acaso do processo é acolhido com espanto, não resistido.