Ler o enunciado em texto
Certo sábado, o sinhô José Carlos recebeu visitas, sete ou oito homens da capital. Eram pessoas importantes, pois nós, da cozinha, trabalhamos muito preparando quitutes sob a supervisão da sinhá Ana Felipa, que acompanhava tudo de caderno em punho e língua afiada. Depois de cada prato pronto, ela experimentava e jogava fora o que não ficava bom, no lixo mesmo, não sem antes jogar água ou fazer qualquer outra coisa para que nós não pudéssemos aproveitar.
Fazia isso dizendo que preto não tinha paladar para apreciar aquele tipo de comida e nem ela queria ser acusada de ter alimentado escravos com comida digna de reis, mesmo que estragada pela nossa incompetência, pelo nosso dom de fazer somente a ração a que estávamos acostumados todos os dias. O Sebastião e a Antônia, que serviriam os pratos, ganharam fardas novas. Ficaram horas com a sinhá Ana Felipa, que mostrou de que lado de cada pessoa deveriam servir à mesa, a ordem em que os pratos sairiam da cozinha e depois seriam retirados, como encher os copos, e outras coisas.
GONÇALVES, A. M. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2010. Nesse trecho do romance, as tensões do contexto narrativo refletem-se na
A maneira como as pessoas escravizadas são tratadas.
B forma como as relações interpessoais são questionadas.
C diferença de hábitos alimentares comuns ao período colonial.
D exigência do respeito a tradições próprias da classe dominante.
E organização do espaço conforme os costumes vigentes à época.
Gabarito oficial
A
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Literatura brasileira contemporânea: identificar onde se manifesta a tensão do contexto narrativo.
Resolução passo a passo
- Repare no gesto central da cena: a sinhá “jogava fora o que não ficava bom, no lixo mesmo, não sem antes jogar água ou fazer qualquer outra coisa para que nós não pudéssemos aproveitar”.
- Note que é um esforço extra. Não bastava descartar: era preciso inutilizar. A crueldade está no trabalho a mais para impedir o acesso.
- Leia a justificativa que ela dá: “preto não tinha paladar para apreciar aquele tipo de comida”, e ela não queria ser acusada de alimentar escravizados com “comida digna de reis”.
- Some o treinamento de Sebastião e Antônia, fardados e ensaiados por horas para servir. Em tudo, a tensão aparece na maneira como as pessoas escravizadas são tratadas — alternativa A.
Alternativa por alternativa
- A
maneira como as pessoas escravizadas são tratadas.
Correta. A comida é estragada de propósito para que os escravizados não comam, sob a justificativa de que não teriam paladar, e os que servem são treinados como objetos de cena. A tensão está inteira no tratamento dado a eles.
- B
forma como as relações interpessoais são questionadas.
Errada. Ninguém questiona nada dentro da cena. A narradora relata, e a violência aparece como rotina aceita — é o leitor que a questiona.
- C
diferença de hábitos alimentares comuns ao período colonial.
Errada. Não há comparação de hábitos alimentares. Há uma comida só, e a questão é quem tem permissão de comê-la.
- D
exigência do respeito a tradições próprias da classe dominante.
Errada. A etiqueta à mesa é ensinada aos que servem, mas como instrumento de controle. O texto não defende o respeito a essas tradições: mostra o que elas custam a quem as executa.
- E
organização do espaço conforme os costumes vigentes à época.
Errada. A separação entre cozinha e sala existe no pano de fundo, mas a cena se concentra em atos e falas, não na organização do espaço.