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A borboleta azul
“Ninguém nasce borboleta”, pensou Breno. Depois disse baixinho: “A borboleta é um presente do tempo”. Lá fora, ela, a borboleta, não pensava nada disso. Ocupava-se em voar pela noite de árvore em árvore. Era azul e sem dúvida um dia havia sido lagarta. Breno tem nove anos e é uma criança, a lagarta é como se fosse uma borboleta criança, mas quando Breno for adulto vira homem e não borboleta, e homens não voam. Sonho de Breno é voar, seja como piloto de avião ou jogador de futebol. Como borboleta, Breno nunca chegou a pensar, tem nove anos, mas sabe que é menino e não lagarta. A avó de Breno sempre diz: “Lagarta queima o dedinho e come planta, mas vira borboleta. Ninguém nasce borboleta”. Agora o menino pensa e olha a borboleta na janela. “De manhã vi um monte de buraquinhos nas folhas”; explicaram a ele: “É coisa de lagarta”. Os buracos nas acerolas e goiabas eram coisa dos passarinhos. Isso ninguém precisou explicar, porque ele sempre viu os passarinhos indo bicar as frutas, menos o beija-flor, que só ia bicar a água no copo de flor pendurado na goiabeira. “O que será que borboleta come? Será que beija-flor só bebe água?”. Pensou muito nisso e sentiu fome. Saiu em direção à cozinha.
MARTINS, G. O sol na cabeça. São Paulo: Cia. das Letras, 2018. Nesse fragmento, a estratégia que constrói a narração sob a perspectiva do protagonista é a
A recorrência de termos na forma diminutiva.
B inserção de memórias no decorrer do enredo.
C descrição pormenorizada do entorno do personagem.
D incorporação da voz do personagem à voz do narrador.
E mescla de planos narrativos nos tempos presente e passado.
Gabarito oficial
D
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Foco narrativo: identificar o recurso que aproxima o narrador da perspectiva do menino.
Resolução passo a passo
- Observe como o texto começa: uma fala entre aspas (“Ninguém nasce borboleta”) seguida de “pensou Breno”. Até aí, narrador e personagem estão separados.
- Agora leia sem as aspas: “Breno tem nove anos e é uma criança, a lagarta é como se fosse uma borboleta criança, mas quando Breno for adulto vira homem e não borboleta, e homens não voam”.
- Repare em quem raciocina ali. A sintaxe é frouxa, encadeada por vírgulas e “e”, e o raciocínio é infantil — a lagarta como “borboleta criança”. É o pensamento do menino, mas quem escreve é o narrador de terceira pessoa.
- O mesmo acontece no fecho: “O que será que borboleta come? Será que beija-flor só bebe água?”. O narrador incorporou a voz do personagem à sua própria — alternativa D.
Alternativa por alternativa
- A
recorrência de termos na forma diminutiva.
Errada. Os diminutivos aparecem (“baixinho”, “dedinho”, “buraquinhos”), mas são detalhe de vocabulário. Eles acompanham o efeito, sem ser o que constrói a perspectiva.
- B
inserção de memórias no decorrer do enredo.
Errada. Não há memórias no sentido de flashback. As falas da avó e as explicações que deram a Breno são informações que ele usa para pensar agora, no presente da cena.
- C
descrição pormenorizada do entorno do personagem.
Errada. A descrição do entorno é mínima: árvores, janela, acerolas e goiabas, citadas de passagem. O texto se ocupa do que se passa dentro do menino.
- D
incorporação da voz do personagem à voz do narrador.
Correta. O narrador de terceira pessoa passa a raciocinar com a lógica e a sintaxe de uma criança de nove anos, sem marcar o discurso com aspas ou verbos de dizer. É o discurso indireto livre.
- E
mescla de planos narrativos nos tempos presente e passado.
Errada. A narrativa se passa toda no presente, num único momento. As referências ao que já viu servem ao raciocínio atual, sem constituir um plano narrativo à parte.