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Coração tição
Quero me lambuzar nos mares negros
para não me perder,
conseguir chegar no meu destino.
Não quero ser parda, mulata
Sou afro-brasileira-mineira.
Bisneta
de uma princesa de Benguela.
Não serei refém de valores
que não me pertencem.
Quero sentir meu coração
como um tição.
Não vou deixar que o mito
do fogo entre as pernas iluda e desvie
homens e mulheres
daqui por diante.
CRUZ, A. E... Feito luz. Florianópolis: ND, 2006. Nesse poema, o jogo entre afirmações e negações reflete a expressividade de um eu lírico que
A recusa imposições historicamente forjadas.
B desenha sua identidade por meio da memória.
C resgata heranças míticas do território africano.
D reivindica o reconhecimento de sua feminilidade.
E rejeita a noção de emotividade associada a gênero.
Gabarito oficial
A
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Análise poética: entender o efeito do jogo entre afirmações e negações.
Resolução passo a passo
- Separe as negações: “Não quero ser parda, mulata”; “Não serei refém de valores que não me pertencem”; “Não vou deixar que o mito do fogo entre as pernas iluda”.
- Repare no que elas têm em comum: parda, mulata, valores alheios, o mito da mulher negra sexualizada — tudo isso é nome que vem de fora, rótulo construído pela sociedade ao longo da história.
- Agora as afirmações: “Sou afro-brasileira-mineira”, “Bisneta de uma princesa de Benguela”, “Quero sentir meu coração como um tição”. Ela substitui cada rótulo por um termo próprio.
- O movimento do poema é, portanto, recusar o que lhe foi imposto para poder dizer-se por conta própria: ele recusa imposições historicamente forjadas — alternativa A.
Alternativa por alternativa
- A
recusa imposições historicamente forjadas.
Correta. Cada negação do poema derruba um rótulo construído historicamente — “parda”, “mulata”, o mito do “fogo entre as pernas” — e cada afirmação põe no lugar um nome escolhido pela própria voz que fala.
- B
desenha sua identidade por meio da memória.
Errada. A bisavó de Benguela aparece como raiz reivindicada, não como lembrança narrada. O poema não recorre à memória pessoal: ele confronta designações.
- C
resgata heranças míticas do território africano.
Errada. O único mito citado é o do “fogo entre as pernas” — um estereótipo racista europeu, e não uma herança africana. E o poema o rejeita, em vez de resgatá-lo.
- D
reivindica o reconhecimento de sua feminilidade.
Errada. Reconhecimento de feminilidade não é a pauta: o que o eu lírico recusa é justamente a imagem sexualizada que lhe atribuem. A afirmação é racial e identitária.
- E
rejeita a noção de emotividade associada a gênero.
Errada. A emotividade não está em discussão. “Coração como um tição” é imagem de força e brasa, ligada à ancestralidade negra, não a um debate sobre emoção e gênero.