Ler o enunciado em texto
Essa ideia levou-o a estudar os costumes tupinambás... Desde dez dias que se entregara a essa árdua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram à porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio também, e o compadre e a filha, pois eram eles, ficaram estupefatos no limiar da porta.
— Mas que é isso, compadre?
— Que é isso, Policarpo?
— Mas, meu padrinho...
Ele ainda chorou um pouco. Enxugou as lágrimas e, depois,
explicou com a maior naturalidade:
— Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das coisas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.
BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Ática, 1998. O diálogo descrito no texto remete aos costumes do(a)
A proselitismo judaico.
B experiência artística.
C religiosidade católica.
D comportamento vulgar.
E racionalidade indígena.
Gabarito oficial
E
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Literatura e cultura: reconhecer a matriz cultural da atitude do personagem.
Resolução passo a passo
- Veja o que Policarpo estava fazendo: “estudar os costumes tupinambás”. A cena é consequência direta desse estudo.
- Observe o gesto: ele recusa o aperto de mão e chora, berra, arranca os cabelos ao receber os amigos.
- E ouça a justificativa que ele mesmo dá: “Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás”.
- O “choro de saudação” é prática de fato registrada entre povos tupis pelos cronistas. Policarpo adota a lógica cultural indígena como legitimamente brasileira — alternativa E.
Alternativa por alternativa
- A
proselitismo judaico.
Errada. Não há elemento judaico na cena. Policarpo invoca expressamente os tupinambás, povo indígena do litoral brasileiro.
- B
experiência artística.
Errada. A cena não tem propósito estético. É a aplicação, no cotidiano, de um costume que o personagem estudou e adotou.
- C
religiosidade católica.
Errada. O domingo é apenas o dia da visita. Nada no gesto de Policarpo vem do catolicismo — ele o atribui aos tupinambás.
- D
comportamento vulgar.
Errada. O comportamento não é vulgar, é deliberado e fundamentado em pesquisa. O efeito cômico vem do contraste com as convenções, não de grosseria.
- E
racionalidade indígena.
Correta. Policarpo aplica ao próprio cotidiano o “choro de saudação” dos tupinambás, costume que estudava. Sua recusa do aperto de mão expressa a adoção de uma lógica cultural indígena como a autenticamente brasileira — o nacionalismo levado ao extremo que define o personagem.