Ler o enunciado em texto
O perdão não é o esquecimento. Ao contrário, ele requer a memória absolutamente viva do que não se pode esquecer, para além de todo trabalho do luto, de reconciliação, de restauração. Apenas se pode perdoar lembrando-se, sem atenuar, o malfeito, aquilo que se tem a perdoar. Se apenas perdoo o que é perdoável, o pecado não mortal, não faço nada que mereça o nome de perdão. O que é perdoável está de antemão perdoado. Daí a aporia: apenas se tem a perdoar o imperdoável. O único perdão possível é, portanto, realmente o perdão impossível.
DERRIDA, J. Papel máquina. São Paulo: Estação Liberdade, 2004. O conceito de perdão apresentado no texto pressupõe a necessidade de
A dirigir um apelo ético também à vítima.
B isentar de culpabilidade moral o ofensor.
C reaproximar de forma imediata os envolvidos.
D exigir uma reparação efetiva pela dor causada.
E evidenciar o caráter religioso da ação de desculpar.
Gabarito oficial
A
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Filosofia contemporânea: compreender a aporia do perdão e o que ela exige de quem perdoa.
Resolução passo a passo
- Isole a primeira tese: “O perdão não é o esquecimento. Ao contrário, ele requer a memória absolutamente viva do que não se pode esquecer”.
- Repare em quem carrega essa memória. Quem lembra “sem atenuar, o malfeito” é quem sofreu — a vítima. Ela é o sujeito do verbo perdoar em todo o trecho.
- Agora a aporia: “Se apenas perdoo o que é perdoável […] não faço nada que mereça o nome de perdão”; logo, “apenas se tem a perdoar o imperdoável”.
- Derrida está, portanto, exigindo algo da vítima: perdoar sem esquecer e sem diminuir a ofensa, justamente aquilo que não merece perdão. É um apelo ético dirigido também a quem foi ferido — alternativa A.
Alternativa por alternativa
- A
dirigir um apelo ético também à vítima.
Correta. Como o perdão exige memória viva do malfeito e incide sobre o imperdoável, quem precisa realizar esse gesto quase impossível é a vítima. O texto formula, assim, uma exigência ética que recai também sobre ela, e não apenas sobre o ofensor.
- B
isentar de culpabilidade moral o ofensor.
Errada. É o contrário: lembrar “sem atenuar” o malfeito significa manter a culpa inteira. Se a falta fosse desculpada, não haveria o que perdoar.
- C
reaproximar de forma imediata os envolvidos.
Errada. Derrida coloca o perdão “para além de todo trabalho do luto, de reconciliação, de restauração”. Ele não depende de reaproximação, muito menos imediata.
- D
exigir uma reparação efetiva pela dor causada.
Errada. A reparação pertence à ordem da restauração, que o texto expressamente ultrapassa. Um perdão condicionado à reparação seria perdão do perdoável — o que, para Derrida, não é perdão.
- E
evidenciar o caráter religioso da ação de desculpar.
Errada. O trecho usa “pecado não mortal” como referência conceitual, mas a argumentação é filosófica e trata da possibilidade lógica do perdão, não de sua dimensão religiosa.