Ler o enunciado em texto
Escrever bem
Às vezes vejo-me envolvido em discussões sobre “escrever bem”. Já pensei no assunto e tenho uma ideia formada: ninguém “escreve bem”. Alguns “reescrevem bem” e, com isso, produzem textos mais enxutos, claros e eficientes. O segredo está em ler o que se acabou de escrever, enxergar os excessos e meter-lhes a caneta. Donde o mais exato seria dizer que ninguém escreve bem de primeira.
Reescrever consiste em expurgar o desnecessário. Certa vez, revisei um livro de autor famoso e joguei fora tantos naturalmentes e principalmentes que dariam para encher um caminhão. O livro melhorou muito.
Reescrever exige colocar-se no lugar do leitor e perguntar se a informação precisa de certos anexos. Um deles é o “vale ressaltar que...” — ao qual se segue a informação que se quer ressaltar. Experimente cortar o “vale ressaltar” e ir direto à informação. Descobrirá que não perderá nada com isso.
E, assim como “vale ressaltar”, há o “é bom frisar”, “cabe destacar”, “convém assinalar” etc. e, claro, “pontuar” (por que não “virgular”?). Pesos mortos, inúteis. O papel aceita tudo, como sabemos. Mas muitos leitores não.
CASTRO, R. Disponível em: www1.folha.uol.com.br.
Acesso em: 3 jan. 2024 (adaptado).
Nesse texto, uma das estratégias empregadas para convencer o leitor sobre a tese defendida é o argumento por exemplificação, evidenciado em
A “Às vezes vejo-me envolvido em discussões sobre ‘escrever bem’. Já pensei no assunto e tenho uma ideia formada: ninguém ‘escreve bem’”.
B “O segredo está em ler o que se acabou de escrever, enxergar os excessos e meter-lhes a caneta”.
C “Certa vez, revisei um livro de autor famoso e joguei fora tantos naturalmentes e principalmentes que dariam para encher um caminhão. O livro melhorou muito”.
D “Reescrever exige colocar-se no lugar do leitor”.
E “O papel aceita tudo, como sabemos. Mas muitos leitores não”.
Gabarito oficial
C
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Estratégias argumentativas: distinguir o argumento por exemplificação da tese e dos demais recursos.
Resolução passo a passo
- Localize primeiro a tese, para não confundi-la com o argumento: “ninguém escreve bem de primeira” — alguns apenas “reescrevem bem”.
- Argumento por exemplificação é aquele em que o autor apresenta um caso concreto, vivido ou observado, para comprovar o que afirma. Procure, então, um episódio com tempo, lugar ou personagem.
- Só um trecho tem isso: “Certa vez, revisei um livro de autor famoso e joguei fora tantos “naturalmentes” e “principalmentes” que dariam para encher um caminhão”. É um caso particular, narrado em primeira pessoa.
- E o exemplo prova a tese na frase seguinte: “O livro melhorou muito”. Cortar excesso melhorou um texto real — alternativa C.
Alternativa por alternativa
- A
“Às vezes vejo-me envolvido em discussões sobre ‘escrever bem’. Já pensei no assunto e tenho uma ideia formada: ninguém ‘escreve bem’”.
Errada. Esse trecho enuncia a tese (“ninguém escreve bem”). É o ponto que precisa ser comprovado, e não a comprovação.
- B
“O segredo está em ler o que se acabou de escrever, enxergar os excessos e meter-lhes a caneta”.
Errada. Aqui o autor explica o método — ler, enxergar os excessos, cortar. É uma orientação geral, sem nenhum caso concreto que a sustente.
- C
“Certa vez, revisei um livro de autor famoso e joguei fora tantos naturalmentes e principalmentes que dariam para encher um caminhão. O livro melhorou muito”.
Correta. O autor narra um episódio específico da própria experiência como revisor — o livro do autor famoso, os “naturalmentes” e “principalmentes” cortados — e conclui que “o livro melhorou muito”. Um caso concreto usado para comprovar a tese é exatamente o argumento por exemplificação.
- D
“Reescrever exige colocar-se no lugar do leitor”.
Errada. É mais uma formulação do princípio defendido. O exemplo viria depois, quando ele lista os “vale ressaltar”, mas a frase em si é abstrata.
- E
“O papel aceita tudo, como sabemos. Mas muitos leitores não”.
Errada. “O papel aceita tudo” é um ditado popular, retomado com uma reviravolta (“mas muitos leitores não”). O recurso aí é o senso comum e a ironia, não a exemplificação.