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Questão 29 do ENEM 2025 resolvida

Trecho de Água de barrela, de Eliana Alves Cruz: a enumeração da riqueza do engenho e a “corte do massapé”.

Questão 29 do ENEM 2025, aplicação regular, como saiu no caderno de prova
ENEM 2025 · aplicação regular · caderno 1 · azul · questão 29
Ler o enunciado em texto

Só entende os corações desse lugar quem mergulha nesse mar a perder de vista e recoberto de cana caiana, cana fita, cana roxa, cana-de-macaco, açúcar, melado, rapadura, aguardente, fumo, mandioca, quiabos, pimentas, moendas, frutas, fruta-pão, sobrados, senzalas, tachos, casa de purgar. Um reino dentro de outro, com tudo o que se tem direito: reis, rainhas, príncipes e princesas, bobos da corte, cortesãos, conselheiros e escravos, muitos escravos. […]

A corte do massapé, como qualquer outra na história da humanidade, fazia tudo para não deixar escapar nenhum mísero grão dos seus domínios para quem estivesse de fora do seu apertado círculo. Os nomes se repetiam de pai para filho, para sobrinho, para netos e bisnetos, de forma concêntrica e repetitiva, para que não pairasse nenhuma dúvida de que são todos da mesma parentela. As farinhas todas num mesmo saco brasonado.

CRUZ, E. A. Água de barrela. Rio de Janeiro: Malê, 2018. Nesse fragmento, o narrador enumera o resultado do trabalho com a terra, o qual, no contexto em que aparece,

A espelha a permanência dos privilégios de classe.
B oferece um panorama da população do campo.
C mostra os benefícios da fartura na agricultura.
D defende a importância da atividade coletiva.
E valoriza o trabalho ao longo das gerações.

Gabarito oficial

A

Caderno de referência do INEP.

O que a questão cobra

Leitura literária: entender a função de uma enumeração no contexto em que ela aparece — o comando é explícito quanto a isso.

Resolução passo a passo

  1. A enumeração é longa e farta: “cana caiana, cana fita, cana roxa… açúcar, melado, rapadura, aguardente, fumo, mandioca, quiabos, pimentas, moendas, frutas, fruta-pão, sobrados, senzalas, tachos, casa de purgar”.
  2. Repare que a lista não é só de alimentos: ela termina em senzalas e casa de purgar. Gente escravizada entra na conta junto com os bens.
  3. O contexto chega na frase seguinte: “Um reino dentro de outro… reis, rainhas, príncipes e princesas… e escravos, muitos escravos”. A fartura pertence a uma corte.
  4. E o segundo parágrafo mostra o que se faz com ela: “fazia tudo para não deixar escapar nenhum mísero grão dos seus domínios”, com nomes repetidos “de pai para filho, para sobrinho, para netos e bisnetos”. A riqueza fica no mesmo círculo, geração após geração — a permanência dos privilégios de classe, alternativa A.

Alternativa por alternativa

  • A

    espelha a permanência dos privilégios de classe.

    Correta. A abundância enumerada é imediatamente enquadrada como propriedade de uma “corte” que não deixa escapar nada e perpetua os mesmos nomes por gerações — “as farinhas todas num mesmo saco brasonado”.

  • B

    oferece um panorama da população do campo.

    Errada. A lista é de plantas, produtos e construções, não de pessoas. E a única menção a gente é para dizer que há “escravos, muitos escravos” — o oposto de um panorama da população do campo.

  • C

    mostra os benefícios da fartura na agricultura.

    Errada. A fartura não aparece como benefício de ninguém. Ela é cercada: o texto insiste que nada escapa “para quem estivesse de fora do seu apertado círculo”.

  • D

    defende a importância da atividade coletiva.

    Errada. Não há defesa de atividade coletiva. O que o trecho mostra é o contrário: um grupo fechado que se protege de todos os outros e mantém o resultado do trabalho alheio.

  • E

    valoriza o trabalho ao longo das gerações.

    Errada. O que se repete ao longo das gerações, no texto, são os nomes e a propriedade da família dominante — não o reconhecimento de quem trabalhou. Quem trabalha ali está do lado das senzalas.

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