Texto de apoio — vale para as questões 6 a 10

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Texto para as
Saudades da secretária eletrônica
Talvez o Vale do Silício queira transformar nossos cérebros em patê para depois comê-lo
1 Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: 2 é como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como 3 quem põe um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o 4 cachimbo. Na semana passada, por exemplo, me escreveu à uma e meia da manhã pedindo 5 para lhe mandar um x-salada: “Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, 6 iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas coisas”. 7 Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu 8 minha mensagem?”. “Por onde?”. Silêncio. “Não aguento mais essas coisas” — e começou 9 a reclamar da dificuldade de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS,
10 e-mail, DM no Facebook, no Instagram, no Twitter...”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é 11 que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite e te escrevi pra não esquecer, agora 12 não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”. 13 Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é 14 “dessas coisas”: aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita 15 de informação que de bom grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis 16 de milho pra transformar fígado de ganso em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus 17 comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em patê para depois comê-los com 18 cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A hipótese é absurda, 19 mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo). 20 Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma 21 proposta bem razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo 22 mundo fica com o celular que tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos 23 que tem e os canais de televisão que tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir 24 a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os podcasts, vê se precisa inventar mais 25 alguma coisa ou para por aí mesmo”. 26 Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, 27 exatamente?! De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente 28 um xerox eletrônico? 29 Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de 30 “a infraestrutura produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. 31 A nossa maneira de agir molda a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se 32 relaciona com o tempo, a comida, o sexo e as unhas dos pés de formas completamente 33 diferentes do que um programador de vinte e dois anos, hoje, no Vale do Silício. É evidente 34 que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha placa para bruxismo. 35 Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes. 36 O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo 37 o que é sólido desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se 38 desmancha, inundado por dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê? 39 “Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: 40 cinco anos sem inventarem nada. Nada. Que saudades da secretária eletrônica”.
PRATA, A. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 11 ago. 2024 (adaptado).
Ler o enunciado em texto
O trecho dessa crônica que reproduz uma marca linguística recorrente na oralidade de muitos brasileiros é:
A “Eu o chamo de ‘velho pai’”. (l. 1)
B “e te escrevi pra não esquecer”. (l. 11)
C “a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados”. (l. 13)
D “uma proposta bem razoável para minorá-lo”. (l. 20-21)
E “assistir a todas as séries, ler todos os livros”. (l. 23-24)
Gabarito oficial
B
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Variação linguística: identificar a marca de oralidade brasileira presente em um dos trechos.
Resolução passo a passo
- Entenda o que se procura: uma construção que a norma-padrão não abona mas que é corrente na fala do brasileiro.
- Examine o trecho da alternativa B: “e te escrevi pra não esquecer” (l. 11). O sujeito da conversa é você, de terceira pessoa, mas o pronome usado é te, de segunda.
- Essa mistura — tratar alguém por você e complementar com te, ti, teu — é uma das marcas mais frequentes do português falado no Brasil. Na norma-padrão seria “escrevi lhe” ou “escrevi a você”.
- Some a isso o “pra”, redução típica da fala, e o trecho fica sendo o único com marca oral clara — alternativa B.
Alternativa por alternativa
- A
“Eu o chamo de ‘velho pai’”. (l. 1)
Errada. “Eu o chamo de “velho pai”” usa o pronome o, exatamente o que a norma-padrão pede. É o oposto do que a questão procura.
- B
“e te escrevi pra não esquecer”. (l. 11)
Correta. Misturar o tratamento “você” com o pronome “te” (e usar “pra” no lugar de “para”) é marca corrente da oralidade brasileira. A norma-padrão exigiria “escrevi-lhe” ou “escrevi a você”.
- C
“a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados”. (l. 13)
Errada. “a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados” traz “de ele” sem contração — construção que a norma-padrão prescreve justamente por ser sujeito do infinitivo.
- D
“uma proposta bem razoável para minorá-lo”. (l. 20-21)
Errada. “uma proposta bem razoável para minorá-lo” está em registro formal, com ênclise e o verbo minorar, pouco usual na fala.
- E
“assistir a todas as séries, ler todos os livros”. (l. 23-24)
Errada. “assistir a todas as séries” emprega a regência que a norma-padrão exige (assistir a algo). Na oralidade se diria “assistir todas as séries”.