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Concurso de Bolsas

Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Questão 10 do ENEM 2025 resolvida

A crônica de Antonio Prata, que alterna narração, descrição e argumentação ao longo do texto.

Texto de apoio — vale para as questões 6 a 10

Texto de apoio das questões 6 a 10 do ENEM 2025
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Texto para as

Saudades da secretária eletrônica

Talvez o Vale do Silício queira transformar nossos cérebros em patê para depois comê-lo

1 Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: 2 é como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como 3 quem põe um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o 4 cachimbo. Na semana passada, por exemplo, me escreveu à uma e meia da manhã pedindo 5 para lhe mandar um x-salada: “Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, 6 iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas coisas”. 7 Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu 8 minha mensagem?”. “Por onde?”. Silêncio. “Não aguento mais essas coisas” — e começou 9 a reclamar da dificuldade de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS,

10 e-mail, DM no Facebook, no Instagram, no Twitter...”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é 11 que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite e te escrevi pra não esquecer, agora 12 não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”. 13 Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é 14 “dessas coisas”: aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita 15 de informação que de bom grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis 16 de milho pra transformar fígado de ganso em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus 17 comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em patê para depois comê-los com 18 cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A hipótese é absurda, 19 mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo). 20 Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma 21 proposta bem razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo 22 mundo fica com o celular que tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos 23 que tem e os canais de televisão que tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir 24 a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os podcasts, vê se precisa inventar mais 25 alguma coisa ou para por aí mesmo”. 26 Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, 27 exatamente?! De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente 28 um xerox eletrônico? 29 Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de 30 “a infraestrutura produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. 31 A nossa maneira de agir molda a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se 32 relaciona com o tempo, a comida, o sexo e as unhas dos pés de formas completamente 33 diferentes do que um programador de vinte e dois anos, hoje, no Vale do Silício. É evidente 34 que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha placa para bruxismo. 35 Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes. 36 O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo 37 o que é sólido desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se 38 desmancha, inundado por dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê? 39 “Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: 40 cinco anos sem inventarem nada. Nada. Que saudades da secretária eletrônica”.

PRATA, A. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 11 ago. 2024 (adaptado).

Questão 10 do ENEM 2025, aplicação de Belém, como saiu no caderno de prova
ENEM 2025 · aplicação de Belém · caderno 1 · azul · questão 10
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Esse texto organiza-se pelo encadeamento de sequências textuais diversas. Entre elas, a sequência argumentativa, que está apresentada em:

A “Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe um cachimbo na boca pra uma foto”. (l. 2-3)
B “Meu velho pai tá de saco cheio ‘dessas coisas’”. (l. 7)
C “e começou a reclamar da dificuldade de nos comunicarmos por tantos canais”. (l. 8-9)
D “A hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo”. (l. 18-19)
E “Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de ‘a infraestrutura produz a superestrutura’”. (l. 29-30)

Gabarito oficial

D

Caderno de referência do INEP.

O que a questão cobra

Sequências textuais: distinguir o trecho argumentativo dos narrativos e descritivos.

Resolução passo a passo

  1. Lembre o que caracteriza a sequência argumentativa: ela apresenta uma tese e a sustenta, em geral com conectivos de oposição ou conclusão. Não conta nem descreve.
  2. Classifique as demais. A e C narram (o que o pai faz, o que ele fez); B é fala citada; E narra uma lembrança da faculdade.
  3. Agora leia D: “A hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo” (l. 18-19). Há um juízo (“é absurda”) e um confronto marcado por “mas”.
  4. O autor admite o exagero da própria piada para, com ela, afirmar algo mais forte sobre a realidade. Isso é argumentar — alternativa D.

Alternativa por alternativa

  • A

    “Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe um cachimbo na boca pra uma foto”. (l. 2-3)

    Errada. O trecho descreve um gesto do pai, com uma comparação ilustrativa (“como quem põe um cachimbo na boca pra uma foto”). Não defende ponto de vista algum.

  • B

    “Meu velho pai tá de saco cheio ‘dessas coisas’”. (l. 7)

    Errada. “Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”” é relato de um estado do personagem — sequência narrativa, que inclusive abre o segundo parágrafo.

  • C

    “e começou a reclamar da dificuldade de nos comunicarmos por tantos canais”. (l. 8-9)

    Errada. “e começou a reclamar…” narra uma ação: o que o pai passou a fazer durante o telefonema.

  • D

    “A hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo”. (l. 18-19)

    Correta. O trecho emite um juízo (“a hipótese é absurda”) e o usa, pela oposição marcada por “mas”, para sustentar que a realidade é ainda mais absurda. É a tese do texto sendo defendida.

  • E

    “Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de ‘a infraestrutura produz a superestrutura’”. (l. 29-30)

    Errada. A lembrança da faculdade é uma narrativa pessoal. Ela prepara o argumento sobre Marx, mas em si mesma apenas conta algo que aconteceu.

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