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Não ignoro que muitos foram e são de opinião de que as coisas do mundo são governadas de tal modo pela fortuna e por Deus e que os homens não podem corrigi-las com a prudência, e até não têm remédio algum contra eles. Por isso, poder-se-ia julgar que não devemos incomodar-nos demais com as coisas, mas deixar-nos governar à sorte.
MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2010. Diante dessas reflexões de Maquiavel, qual é a função do livre-arbítrio nos domínios da política?
A Aplacar a aspiração de poder dos súditos.
B Orientar o soberano no campo das incertezas.
C Estabilizar a administração por meio do diálogo.
D Relativizar os valores morais no escopo das tradições.
E Aprimorar o espírito bélico para a conquista de territórios.
Gabarito oficial
B
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Filosofia política: entender a relação entre fortuna e virtù no pensamento de Maquiavel.
Resolução passo a passo
- Repare no cuidado com que o trecho é escrito: Maquiavel relata a opinião alheia — “muitos foram e são de opinião” — sem assiná-la. Ele está preparando uma objeção.
- Entenda a opinião exposta: se fortuna e Deus governam tudo, “os homens não podem corrigi-las com a prudência” e não resta senão “deixar-nos governar à sorte”.
- Lembre a resposta que Maquiavel dá no capítulo: a fortuna decide cerca de metade das nossas ações, mas a outra metade cabe a nós. É a virtù — a capacidade de agir e de se preparar.
- A função do livre-arbítrio é, portanto, permitir ao governante decidir e antecipar-se justamente onde nada está garantido: orientar o soberano no campo das incertezas — alternativa B.
Alternativa por alternativa
- A
Aplacar a aspiração de poder dos súditos.
Errada. Os súditos não são o tema do trecho. A discussão é sobre o quanto o príncipe pode fazer diante do imprevisível.
- B
Orientar o soberano no campo das incertezas.
Correta. Contra a ideia de que tudo é fortuna e Deus, Maquiavel sustenta que resta ao homem a virtù. O livre-arbítrio serve para que o soberano decida e se antecipe no terreno que ninguém controla — o do acaso.
- C
Estabilizar a administração por meio do diálogo.
Errada. O diálogo não é categoria maquiaveliana. Para ele, governar exige decisão rápida e leitura da circunstância, não deliberação consensual.
- D
Relativizar os valores morais no escopo das tradições.
Errada. A relação entre política e moral é central em Maquiavel, mas não é do que trata este trecho, que discute fortuna e capacidade humana de intervir.
- E
Aprimorar o espírito bélico para a conquista de territórios.
Errada. A guerra é assunto de outros capítulos de O Príncipe. Aqui se discute a margem de ação humana diante do imprevisto.