Ler o enunciado em texto
Falavam-me sempre no perigo de subir à Favela. Nos seus terríveis valentes. Nos seus malandros que assaltam com a mesma facilidade com que se dá bom-dia.
O maior perigo que eu encontrei na Favela foi o risco, a cada passo, de despencar-me de lá de cima pela pedreira ou pelo morro abaixo.
Aquela gente, que não tem nada, dá uma profunda lição de alegria àqueles que têm tudo.
Sem higiene, sem conforto, naqueles pequeninos casebres [...], que se arriscam, a cada instante, a voar com o vento ou despencar-se lá de cima; aquela população de homens valentes — estivadores, carvoeiros, embarcadiços — e de mulheres anemiadas e fracas, e de crianças mal alimentadas e em trapos, cria porcos, bebe cachaça, toca cavaquinho e canta!...
COSTALLAT, B. Mistérios do Rio. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal
de Cultura, Turismo e Esportes, 1990. Em 1924, quando foi publicada essa crônica, predominava uma visão estigmatizada e preconceituosa sobre as comunidades no Rio de Janeiro da Primeira República. Nesse trecho, essa percepção é
A reforçada pelas ameaças enfrentadas na favela, habitada por valentes e malandros.
B atenuada por uma visão romântica sobre a comunidade, compreendida como festiva.
C ressignificada pela exposição do real perigo do morro, materializado pelo risco de queda.
D relativizada por uma compreensão ambivalente do morro, constituído por mazelas e alegrias.
E enfatizada pela denúncia das más condições da vida local, marcada pela falta de higiene e conforto.
Gabarito oficial
D
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Leitura crítica de texto histórico: avaliar como a crônica se posiciona diante do estigma sobre a favela.
Resolução passo a passo
- Veja o que o autor faz com o estigma logo de início. Ele cita o que “falavam-me sempre” — valentes, malandros — e desmonta com ironia: o maior perigo que encontrou foi “o risco de despencar-me lá de cima pela pedreira”.
- Repare, porém, que ele não idealiza o lugar: descreve “sem higiene, sem conforto”, “mulheres anemiadas e fracas”, “crianças mal alimentadas e em trapos”. A miséria está toda ali.
- E o fecho junta as duas coisas: essa mesma população “cria porcos, bebe cachaça, toca cavaquinho e canta!”, dando “uma profunda lição de alegria àqueles que têm tudo”.
- O texto não substitui um retrato por outro: ele mostra miséria e alegria ao mesmo tempo. A percepção estigmatizada é relativizada por uma compreensão ambivalente — alternativa D.
Alternativa por alternativa
- A
reforçada pelas ameaças enfrentadas na favela, habitada por valentes e malandros.
Errada. Os valentes e malandros são exatamente o que o cronista desmente. Ele ironiza o medo alheio dizendo que o único risco real era cair do morro.
- B
atenuada por uma visão romântica sobre a comunidade, compreendida como festiva.
Errada. A visão não é romântica, porque a miséria é nomeada sem suavização: falta de higiene, anemia, crianças em trapos. A alegria não apaga isso.
- C
ressignificada pela exposição do real perigo do morro, materializado pelo risco de queda.
Errada. O risco de queda é um recurso irônico para desmontar o medo do crime. Ele não redefine o perigo do morro: só mostra que o perigo temido não era aquele.
- D
relativizada por uma compreensão ambivalente do morro, constituído por mazelas e alegrias.
Correta. A crônica desmonta o medo do crime, mas mantém à vista a precariedade, e fecha com a alegria dos moradores. Miséria e vitalidade convivem no mesmo retrato — por isso a visão estigmatizada é relativizada, não simplesmente negada nem confirmada.
- E
enfatizada pela denúncia das más condições da vida local, marcada pela falta de higiene e conforto.
Errada. As más condições aparecem, mas em tensão com a alegria dos moradores. Reduzir o texto a denúncia ignora a segunda metade da crônica, que é justamente o que a torna ambivalente.