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Sem negar que Deus prevê todos os acontecimentos futuros, entretanto nós queremos livremente aquilo que queremos. Porque, se o objeto da presciência divina é a nossa vontade, é essa mesma vontade assim prevista que se realizará. Haverá, pois, um ato de vontade livre, já que Deus vê esse ato livre com antecedência.
AGOSTINHO. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995 (adaptado).
Refletindo sobre o Deus onisciente e suas criaturas, o autor sustenta a
A existência do saber divino em cooperação com o conhecimento humano.
B prevalência da liberdade humana diante da facticidade.
C precedência da cognição transcendental sobre o agir humano.
D conformação da natureza humana perante os acontecimentos no mundo.
E autonomia do indivíduo a despeito das necessidades inerentes à condição humana.
Gabarito oficial
C
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Filosofia medieval: compreender a articulação entre presciência divina e liberdade humana.
Resolução passo a passo
- Identifique o que Agostinho não abre mão: “sem negar que Deus prevê todos os acontecimentos futuros”. A onisciência é o ponto de partida, não uma concessão.
- Veja a estrutura do argumento: “se o objeto da presciência divina é a nossa vontade, é essa mesma vontade assim prevista que se realizará”.
- Repare na ordem: primeiro Deus vê, depois o ato se realiza. A conclusão é explícita — “haverá um ato de vontade livre, já que Deus vê esse ato livre com antecedência”.
- Ou seja, a liberdade humana é afirmada a partir do conhecimento divino, que a precede e a abrange: a cognição transcendental antecede o agir humano — alternativa C.
Alternativa por alternativa
- A
existência do saber divino em cooperação com o conhecimento humano.
Errada. Não há cooperação entre dois saberes. O conhecimento humano sequer entra na discussão: o que está em jogo é a presciência divina e a vontade humana.
- B
prevalência da liberdade humana diante da facticidade.
Errada. Agostinho não faz a liberdade prevalecer sobre nada. Ele a concilia com a onisciência divina, e o próprio texto começa reafirmando que Deus prevê tudo.
- C
precedência da cognição transcendental sobre o agir humano.
Correta. O argumento parte da presciência divina — Deus vê o ato “com antecedência” — e é a partir dela que a liberdade do ato é afirmada. O conhecimento divino precede e abrange o agir humano, sem anulá-lo.
- D
conformação da natureza humana perante os acontecimentos no mundo.
Errada. Conformar-se aos acontecimentos seria fatalismo, exatamente o que Agostinho combate ao sustentar que “nós queremos livremente aquilo que queremos”.
- E
autonomia do indivíduo a despeito das necessidades inerentes à condição humana.
Errada. A liberdade afirmada no texto não se dá “a despeito” de nada: ela é compatível com a presciência divina, e não uma autonomia conquistada contra a condição humana.