Ler o enunciado em texto
TEXTO I
Ai, que saudades da AméIia
Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Não vê que eu sou um pobre rapaz
Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê você quer
Ai, meu Deus, que saudades da Amélia
Aquilo sim é que era mulher
[...]
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia que era a mulher de verdade
LAGO, M.; ALVES, A. ln: LAGO, M. Mário Lago: 90 anos.
São Paulo: Revivendo Discos, 2001 (fragmento).
TEXTO II
Desconstruindo Amélia
Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme, ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar
O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
[...]
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa,
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também
A despeito de tanto mestrado
Ganha menos que o namorado
E não entende o porquê
Tem talento de equilibrista
Ela é muitas, se você quer saber
Hoje aos trinta é melhor que aos dezoito
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra night ferver
PITTY. Chiaroscuro. Rio de Janeiro: Deckdisc, 2009 (fragmento).
Embora os textos I e II abordem condições de vida da mulher, representada na figura de Amélia, distancia-os o fato de somente o texto II apresentar
A enunciador que participa dos fatos.
B problemas que dificultam a vida cotidiana.
C ruptura com os limites do contexto doméstico.
D representações da mulher que cuida da família.
E elementos que constroem uma atmosfera poética.
Gabarito oficial
C
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Comparação entre textos: encontrar o que existe só no segundo — o comando é explícito ao pedir “somente o texto II”.
Resolução passo a passo
- Leia o Texto I: a Amélia é definida por ausências — “não tinha a menor vaidade”, não exigia nada, aceitava tudo. Ela nunca sai de casa nem da relação.
- Leia o começo do Texto II: filho dormindo, uniforme arrumado, “ela foi educada pra cuidar e servir”. Até aqui, é o mesmo universo doméstico.
- Agora a virada, que existe apenas no Texto II: “de repente ela resolve então mudar / Vira a mesa, assume o jogo… Nem serva, nem objeto”.
- E o alcance dessa mudança: ela tem mestrado, trabalho, percebe a desigualdade salarial e “depois do lar, do trabalho e dos filhos ainda vai pra night ferver”. É a ruptura com os limites do contexto doméstico — alternativa C.
Alternativa por alternativa
- A
enunciador que participa dos fatos.
Errada. É o oposto: quem participa dos fatos é o enunciador do Texto I, o marido que reclama em primeira pessoa (“você me faz”, “eu sou um pobre rapaz”). O Texto II narra em terceira pessoa.
- B
problemas que dificultam a vida cotidiana.
Errada. Os dois textos trazem dificuldades. No I, a queixa de um homem com as exigências da companheira; no II, a dupla jornada e o salário menor. O que os separa não é isso.
- C
ruptura com os limites do contexto doméstico.
Correta. Só no Texto II a mulher rompe com o espaço da casa: ela estuda, trabalha, questiona a desigualdade salarial e ainda ocupa a noite. No Texto I, Amélia jamais sai do lugar que lhe foi dado.
- D
representações da mulher que cuida da família.
Errada. A mulher que cuida da família aparece nos dois. A diferença está no que acontece depois: no Texto II, esse papel deixa de ser o único.
- E
elementos que constroem uma atmosfera poética.
Errada. Ambos são letras de canção e usam recursos poéticos — rima, repetição, imagens. A atmosfera poética não distingue um do outro.