Ler o enunciado em texto
A roda dos não ausentes
O nada e o não,
ausência alguma,
borda em mim o empecilho.
Há tempos treino
o equilíbrio sobre
esse alquebrado corpo,
e, se inteira fui,
cada pedaço que guardo de mim
tem na memória o anelar
de outros pedaços.
E da história que me resta
estilhaçados sons esculpem
partes de uma música inteira.
Traço então a nossa roda gira-gira
em que os de ontem, os de hoje,
e os de amanhã se reconhecem
nos pedaços uns dos outros.
Inteiros.
EVARISTO, C. Poemas de recordação e outros movimentos.
Rio de Janeiro: Malê, 2017. Nesse poema, a expressividade construída pelo eu lírico remete ao(à)
A resignação ante uma realidade fragmentada.
B esquecimento de dores passadas.
C evocação de uma memória coletiva.
D ressignificação de um projeto político.
E fortalecimento de sentimentos particulares.
Gabarito oficial
C
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Leitura de poema: acompanhar o deslocamento do eu lírico do individual para o coletivo.
Resolução passo a passo
- A primeira parte é individual e dolorida: “Há tempos treino o equilíbrio sobre esse alquebrado corpo”, e “cada pedaço que guardo de mim”.
- Repare que os pedaços não estão soltos: eles têm “na memória o anelar de outros pedaços” — cada fragmento chama os demais.
- A memória então constrói alguma inteireza: “estilhaçados sons esculpem partes de uma música inteira”.
- E o poema salta do “mim” para o “nós”: “Traço então a nossa roda gira-gira em que os de ontem, os de hoje, e os de amanhã se reconhecem nos pedaços uns dos outros. Inteiros.” É a evocação de uma memória coletiva — alternativa C.
Alternativa por alternativa
- A
resignação ante uma realidade fragmentada.
Errada. Resignação seria aceitar a fragmentação e parar. O eu lírico faz o contrário: recolhe os pedaços, escuta a música que eles formam e traça uma roda em que todos se completam.
- B
esquecimento de dores passadas.
Errada. Não há esquecimento em nenhum verso — a memória é justamente o que permite aos pedaços se reconhecerem. O poema lembra, e é com a lembrança que reconstrói.
- C
evocação de uma memória coletiva.
Correta. O poema parte de um corpo partido e chega a uma roda que reúne os de ontem, os de hoje e os de amanhã, inteiros no reconhecimento mútuo. A memória individual se abre em memória compartilhada.
- D
ressignificação de um projeto político.
Errada. Não há programa político no texto. O movimento é de reconstrução da identidade pela memória partilhada, sem projeto ou reivindicação explícita.
- E
fortalecimento de sentimentos particulares.
Errada. O trajeto é o inverso: começa no particular (“meu corpo”, “pedaços de mim”) e termina no coletivo (“nossa roda”, “uns dos outros”). O poema abre o sentimento para fora, não o reforça para dentro.