Ler o enunciado em texto
O velho da roça perguntou: — Quanto é a batata, moço? — É dez. — Lá embaixo tem de oito, falou querendo mais parecer cidadão. — Por que não comprou lá embaixo, então? O velho acomodou aquilo como pôde na capanga vazia e engoliu em seco, de repente mais fino, mais murcho, a cabeça dele parecendo a cabecinha de um boneco com um chapéu. Deu um passo atrás, ainda olhando pro dono, e saiu como um cachorro. Glória largou suas compras no balcão, enojada de suas batatas, de seu pacote de manteiga, do seu miserável poder de comprar coisas a Cr$ 10,00 o quilo e ser tratada como primeira-ministra pelo boçal avarento.
PRADO, A. Cacos para um vitral. São Paulo: Siciliano, 1991. Nessa passagem, a situação de tensão entre os personagens revela a
A contradição social decorrente de diferenças de classe.
B dificuldade inerente às condições de vida do trabalhador.
C indiferença do idoso em relação ao constrangimento vivido.
D determinação pessoal no enfrentamento de conflitos sociais.
E priorização no atendimento da clientela em razão de seu gênero.
Gabarito oficial
A
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Leitura literária: identificar o contraste que a cena constrói entre dois clientes do mesmo balcão.
Resolução passo a passo
- Acompanhe o primeiro cliente. O velho pergunta o preço, comenta que “lá embaixo tem de oito” e ouve a resposta seca: “Por que não comprou lá embaixo, então?”.
- Veja o efeito dessa resposta: ele “engoliu em seco, de repente mais fino, mais murcho” e “saiu como um cachorro”. A humilhação é física, visível no corpo.
- Agora o segundo cliente, na mesma cena e no mesmo balcão: Glória é “tratada como primeira-ministra pelo boçal avarento”.
- O que muda entre os dois não é o produto nem o vendedor: é o poder de compra que cada um aparenta. A cena revela a contradição social decorrente da diferença de classe — alternativa A. Tanto que Glória sente nojo do próprio privilégio.
Alternativa por alternativa
- A
contradição social decorrente de diferenças de classe.
Correta. O mesmo comerciante humilha o velho pobre e bajula a cliente que pode pagar. É a diferença de classe — e não o preço da batata — que determina o tratamento, e Glória percebe e se enoja disso.
- B
dificuldade inerente às condições de vida do trabalhador.
Errada. A dificuldade do trabalhador está presente, mas sozinha não explicaria a cena. O que dá força ao trecho é o contraste imediato com o tratamento dispensado a Glória.
- C
indiferença do idoso em relação ao constrangimento vivido.
Errada. O velho é tudo menos indiferente. Ele “engoliu em seco”, ficou “mais fino, mais murcho”, com a cabeça “parecendo a cabecinha de um boneco”, e saiu recuando — a humilhação o atinge inteiro.
- D
determinação pessoal no enfrentamento de conflitos sociais.
Errada. Não há enfrentamento algum. O velho tenta uma observação tímida, é cortado e se retira; Glória sente nojo, mas nada faz. A cena registra a humilhação, não a reação a ela.
- E
priorização no atendimento da clientela em razão de seu gênero.
Errada. O texto não sugere que o critério seja o gênero. Glória é bem tratada por causa do que pode comprar — ela mesma fala do seu “miserável poder de comprar coisas”.