Ler o enunciado em texto
Como abater uma nuvem a tiros
sirenes, bares em chamas,
carros se chocando,
a noite me chama,
a coisa escrita em sangue
nas paredes das danceterias
e dos hospitais,
os poemas incompletos
e o vermelho sempre verde dos sinais
LEMINSKI, P. In: CESAR, A. C. et al. Poesia marginal.
São Paulo: Ática, 2006. O poema de Paulo Leminski filia-se à geração da chamada poesia marginal, produzida por artistas que fugiam dos padrões estabelecidos pela elite literária. Nesse texto, a expressão dessa poética fundamenta-se na
A representação de situações cotidianas fragmentadas, liberdade métrica e ausência de rimas, que ajudam a compor o cenário caótico da vida urbana contemporânea.
B exploração da liberdade temática, o que leva o poema a perder valor semântico, uma vez que as ações retratadas não estão relacionadas com a vida moderna.
C ausência de rimas, uma reclamação latente no verso “os poemas incompletos”, tornando o texto uma crítica aos poetas tradicionais.
D crítica à situação atual do trânsito nas grandes cidades, expressa pelo verso “e o vermelho sempre verde dos sinais”.
E temática da denúncia do caos provocado pelo grande número de acidentes no trânsito, os quais colaboram para a lotação dos hospitais.
Gabarito oficial
A
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Literatura — poesia marginal: identificar os traços formais e temáticos que caracterizam essa produção.
Resolução passo a passo
- Comece pelo que o poema mostra: sirenes, bares em chamas, carros se chocando, sangue nas paredes de danceterias e hospitais, sinais de trânsito. São flagrantes soltos da cidade, sem narrativa que os ligue.
- Observe a forma: versos de tamanhos diferentes, sem métrica fixa e sem esquema de rimas. Nada da regularidade que a tradição literária cobrava.
- Some os dois traços: a poesia marginal dos anos 1970 rejeitava o verso medido e o assunto elevado, e trazia para o poema a linguagem e as cenas do cotidiano urbano.
- O verso final — “o vermelho sempre verde dos sinais” — condensa esse caos em uma imagem contraditória. A poética se sustenta na fragmentação do cotidiano, na liberdade métrica e na ausência de rimas: alternativa A.
Alternativa por alternativa
- A
representação de situações cotidianas fragmentadas, liberdade métrica e ausência de rimas, que ajudam a compor o cenário caótico da vida urbana contemporânea.
Correta. As cenas urbanas aparecem em fragmentos justapostos, e a forma acompanha: versos livres, sem métrica e sem rima. É exatamente o programa da poesia marginal.
- B
exploração da liberdade temática, o que leva o poema a perder valor semântico, uma vez que as ações retratadas não estão relacionadas com a vida moderna.
Errada. A liberdade temática existe, mas a conclusão está errada: o poema não perde valor semântico, e as cenas são inteiramente da vida moderna — trânsito, bares, danceterias, hospitais.
- C
ausência de rimas, uma reclamação latente no verso “os poemas incompletos”, tornando o texto uma crítica aos poetas tradicionais.
Errada. “Os poemas incompletos” é mais uma imagem da série urbana, ao lado das sirenes e dos carros. Ler o verso como queixa sobre rimas isola uma frase do conjunto.
- D
crítica à situação atual do trânsito nas grandes cidades, expressa pelo verso “e o vermelho sempre verde dos sinais”.
Errada. O trânsito aparece em um único verso, no fim. Reduzir o poema a uma crítica ao trânsito ignora os bares em chamas, as danceterias, os hospitais e o sangue nas paredes.
- E
temática da denúncia do caos provocado pelo grande número de acidentes no trânsito, os quais colaboram para a lotação dos hospitais.
Errada. Acidentes e lotação de hospitais seriam um tema de reportagem. O poema não denuncia um problema específico: ele monta uma atmosfera a partir de fragmentos.