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Concurso de Bolsas

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Questão 40 do ENEM 2025 resolvida

Trecho de A luta, de Carmen Dolores: a pensão de D. Adozinda, o namoro de Celina e as visitas do Coronel Juvenato.

Questão 40 do ENEM 2025, aplicação regular, como saiu no caderno de prova
ENEM 2025 · aplicação regular · caderno 1 · azul · questão 40
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Desenvolvendo-se nesse meio, é natural que Celina, filha mais velha de D. Adozinda, tivesse seus pequenos flirts com alguns desses rapazes, muito íntimos da casa e trazendo-lhe da cidade presentes de doces, de balas de ovo, de jornais ilustrados ou de frutas.

As irmãs mais novas iam ao colégio; ela ficava, enchendo o tempo com uns crochês vagarosos, costuras leves, a leitura dos folhetins dos jornais; e o Gilberto, que raramente saía, andava sempre ao seu lado, muito caído por esse tipo um pouco mórbido de menina anêmica [...].

O Gilberto não valia nada, mas quem sabe se apareceria outro, simplório e sincero como ele? E a filha, com os seus dezessete anos, começava a embaraçá-la um pouco, nesse difícil papel de virgem numa casa de pensão, cheia de rapazes. Ora, o melhor era esperar, dar tempo ao tempo... E o Gilberto e a Celina continuaram a namorar-se, ele cândido, ela dúbia; enquanto o Coronel Juvenato, que deixara a mulher em Sobral para tratar de uma concessão rendosa com os políticos do Rio, ia agora monopolizando, como protetor mais importante, as alegres visitas matinais da viúva, que já lhe levava sempre o café — mas sem flores colhidas no jardim, ainda rociadas de orvalho, porque o cearense não dava para essas coisas de poesia. Era rápido, prático, e não admitia bobagens. Por isso, todos os sábados à noite, ele dizia a D. Adozinda com um tremor lúbrico nas banhas moles da face, os olhinhos vivos pestanejando:

— A senhora não se esqueça que amanhã é domingo... Leve-me cedo o café, hein?... que eu tenho de ir à missa... — Pois não, pois não, Coronel! fique descansado — respondia a viúva do Ferreira, muito atenciosamente, tirando-lhe umas caspas da gola do paletó, com a mão repolhuda.

Os outros hóspedes riam-se à socapa; e no domingo o café não faltava, bem cedinho...

DOLORES, C. A luta. Rio de Janeiro: Ímã, s.d. Nesse trecho, ao explorar a descrição como recurso que demarca impressões e pontos de vista, o narrador cria uma ambiência sugestiva do(a)

A escárnio relacionado à degradação moral dos indivíduos.
B cenário urbano marcado por condições de insalubridade.
C persistência do sentimentalismo explorado pelos folhetins.
D prática do enriquecimento ilícito visto nas grandes cidades.
E desigualdade de gênero acentuada pela baixa escolarização.

Gabarito oficial

A

Caderno de referência do INEP.

O que a questão cobra

Literatura — foco narrativo e construção de ambiência. O comando avisa que a descrição “demarca impressões e pontos de vista”: é preciso perceber o julgamento embutido nos adjetivos.

Resolução passo a passo

  1. Repare como o narrador descreve o Coronel: um “tremor lúbrico nas banhas moles da face”, os “olhinhos vivos pestanejando”. Nenhum desses termos é neutro — todos rebaixam a figura.
  2. A viúva recebe o mesmo tratamento: ela retira “umas caspas da gola do paletó, com a mão repolhuda”, e o Coronel é tratado como “protetor mais importante”, com o café levado de manhã.
  3. Celina aparece como “tipo um pouco mórbido de menina anêmica”, “dúbia” no namoro, enquanto a mãe calcula: “o Gilberto não valia nada, mas quem sabe se apareceria outro”.
  4. E o fecho entrega a reação da casa inteira: “Os outros hóspedes riam-se à socapa; e no domingo o café não faltava, bem cedinho…”. O riso disfarçado sela o tom: escárnio diante da degradação moral, alternativa A.

Alternativa por alternativa

  • A

    escárnio relacionado à degradação moral dos indivíduos.

    Correta. Os adjetivos rebaixadores (lúbrico, banhas moles, repolhuda, mórbido, dúbia), o cálculo da mãe sobre os pretendentes e o riso “à socapa” dos hóspedes constroem um olhar de zombaria sobre a decadência moral daquela casa.

  • B

    cenário urbano marcado por condições de insalubridade.

    Errada. Não há descrição de rua, cortiço, sujeira ou doença urbana. Toda a cena se passa dentro de uma pensão, e o que o narrador observa são pessoas, não condições sanitárias.

  • C

    persistência do sentimentalismo explorado pelos folhetins.

    Errada. Os folhetins aparecem como leitura de Celina, num detalhe da rotina. O narrador não explora sentimentalismo — ele faz o oposto, ironizando o namoro (“ele cândido, ela dúbia”).

  • D

    prática do enriquecimento ilícito visto nas grandes cidades.

    Errada. A “concessão rendosa com os políticos do Rio” é um traço que caracteriza o Coronel, mencionado de passagem. Não é o tema do trecho nem o que cria a atmosfera: o foco está na pensão e em seus arranjos.

  • E

    desigualdade de gênero acentuada pela baixa escolarização.

    Errada. As irmãs mais novas vão ao colégio e Celina fica em casa, mas o narrador não atribui a situação dela à escolaridade nem transforma isso em clima do trecho. O que domina é o julgamento moral irônico.

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