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A característica fundamental no aprendizado das práticas rituais nos candomblés é o processo iniciático e participante. Durante o período de reclusão em terreiros ou rocas, o iniciado passa por uma série de ritos esotéricos (banhos rituais, raspagem da cabeça etc.), ao mesmo tempo em que começa a adquirir um complexo código de símbolos materiais (substâncias, folhas, frutos, raízes etc.) e de gestos associados a um repertório linguístico específico das cerimônias que se desenrolam nos contextos sagrados em geral e em cada terreiro em particular.
Esse repertório linguístico, genericamente chamado de “língua de santo” na Bahia, compreende uma terminologia religiosa operacional, de caráter mágico-semântico e de aparente forma portuguesa, mas que repousa sobre sistemas lexicais de diferentes línguas africanas que provavelmente foram faladas no Brasil escravocrata, vindo a constituir uma língua ritual, que se acredita pertencer à nação do vodum, do orixá ou do inquice, e não a determinada nação africana política atual.
Disponível em: https://periodicos.ufba.br.
Acesso em: 21 jan. 2024 (adaptado).
A apresentar uma carga semântica mítica.
B conservar elementos dos falares dos escravizados.
C resgatar expressões portuguesas do período colonial.
D decodificar o ritual religioso dos nossos antepassados.
E favorecer a compreensão do léxico africano contemporâneo.
Gabarito oficial
B
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Leitura de texto acadêmico e compreensão de um conceito de contato linguístico. É preciso ver de onde vem o léxico dessa língua ritual, e não apenas o que ela faz no ritual.
Resolução passo a passo
- O texto primeiro descreve o que é a “língua de santo”: uma “terminologia religiosa operacional, de caráter mágico-semântico e de aparente forma portuguesa”. Guarde o “aparente”.
- A ressalva vem em seguida e é o coração da questão: essa terminologia “repousa sobre sistemas lexicais de diferentes línguas africanas”. Por baixo da forma portuguesa está léxico africano.
- E o texto diz quais línguas: as “que provavelmente foram faladas no Brasil escravocrata” — ou seja, as línguas dos africanos escravizados aqui.
- A “língua de santo” funciona, portanto, como um arquivo vivo: ela conserva elementos dos falares dos escravizados. Alternativa B.
Alternativa por alternativa
- A
apresentar uma carga semântica mítica.
Errada. A carga “mágico-semântica” é citada, mas descreve como a língua opera dentro do ritual. O valor para o patrimônio linguístico do país vem de outro lugar: das línguas que ela preserva.
- B
conservar elementos dos falares dos escravizados.
Correta. O texto afirma que o repertório repousa sobre léxico de línguas africanas faladas no Brasil escravocrata. Guardar esse material é exatamente conservar os falares dos escravizados.
- C
resgatar expressões portuguesas do período colonial.
Errada. Inverte o que o texto diz. A forma portuguesa é apenas aparente; o que está por baixo é africano. Não há resgate de expressões do português colonial.
- D
decodificar o ritual religioso dos nossos antepassados.
Errada. A língua de santo integra o ritual — é parte do código de símbolos, gestos e cerimônias. Ela não serve para decodificar o rito de fora dele.
- E
favorecer a compreensão do léxico africano contemporâneo.
Errada. O texto trata de línguas africanas do período escravocrata e ainda afasta explicitamente a ligação com o presente: a língua ritual pertence “à nação do vodum, do orixá ou do inquice, e não a determinada nação africana política atual”.