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teXto I
A diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que o outro não possa também aspirar, tal como ele. Portanto, se dois homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo em que é impossível ela ser gozada por ambos, eles tornam-se inimigos.
HOBBES, T. Leviatã. São Paulo: Abril, 1980. teXto II
Nada é mais meigo do que o homem em seu estado primitivo, quando, colocado pela natureza entre a estupidez dos brutos e as luzes funestas do homem civil, e compelido tanto pelo instinto quanto pela razão a defender-se do mal que o ameaça, é impedido pela piedade natural de fazer mal a alguém sem ser a isso levado por alguma coisa ou mesmo depois de atingido por algum mal.
ROUSSEAU, J.-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da
desigualdade entre os homens. São Paulo: Abril, 1978. Comparando-se os textos dos contratualistas, verifica-se que eles apresentam um traço constitutivo dos homens no estado de natureza, caracterizado pela
A tendência à autopreservação.
B expressão da inocência.
C condição de igualdade.
D estima à propriedade.
E vontade de poder.
Gabarito oficial
C
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Filosofia moderna: encontrar o traço comum entre duas descrições opostas do estado de natureza.
Resolução passo a passo
- Reconheça a oposição óbvia. Para Hobbes, os homens se tornam inimigos; para Rousseau, “nada é mais meigo do que o homem em seu estado primitivo”. A questão pede o que os une, apesar disso.
- Volte ao ponto de partida de Hobbes: “A diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável” para que um reclame benefício que o outro não possa também pretender. Isso é igualdade.
- Agora Rousseau: seu homem primitivo está “colocado pela natureza entre a estupidez dos brutos e as luzes funestas do homem civil” — todos na mesma condição, antes que a sociedade produza desigualdade (o tema do próprio Discurso).
- Os dois partem, portanto, de homens iguais entre si no estado de natureza, e divergem só quanto ao que decorre disso: guerra para um, paz para o outro. O traço comum é a condição de igualdade — alternativa C.
Alternativa por alternativa
- A
tendência à autopreservação.
Errada. A autopreservação é central em Hobbes e aparece em Rousseau como defesa contra o mal que ameaça, mas em Rousseau ela é contida pela piedade natural. Não funciona do mesmo modo nos dois.
- B
expressão da inocência.
Errada. A inocência é exclusiva de Rousseau. O homem de Hobbes torna-se inimigo do outro assim que ambos desejam a mesma coisa.
- C
condição de igualdade.
Correta. Hobbes diz que a diferença entre os homens não é considerável o bastante para dar vantagem a ninguém; Rousseau situa todos na mesma condição primitiva, antes da desigualdade social. Ambos partem da igualdade — e divergem sobre o que vem depois.
- D
estima à propriedade.
Errada. A propriedade é, para Rousseau, a origem da desigualdade e portanto não pertence ao estado de natureza. Em Hobbes, ela só existe com o Estado.
- E
vontade de poder.
Errada. A vontade de poder é conceito de Nietzsche, do século XIX, e não aparece em nenhum dos dois trechos.