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A escrava
Senti-me tocada de veneração em presença daquele amor filial, tão singelamente manifestado.
— Sigamos, então, — tornei eu. Gabriel caminhava tão apressadamente que eu mal podia acompanhá-lo.
Em menos de quinze minutos transpúnhamos o umbral da casinha, que há dois dias apenas eu habitava.
Eu bem conhecia a gravidade do meu ato: recebia em meu lar dois escravos foragidos, e escravos talvez de algum poderoso senhor; era expor-me à vindita da lei; mas em primeiro lugar o meu dever, e o meu dever era socorrer aqueles infelizes.
Sim, a vindita da lei; lei que infelizmente ainda perdura, lei que garante ao forte o direito abusivo, e execrando de oprimir o fraco.
Mas, deixar de prestar auxílio àqueles desgraçados, tão abandonados, tão perseguidos, que nem para a agonia derradeira, nem para transpor esse tremendo portal da Eternidade, tinham sossego, ou tranquilidade! Não.
Tomei com coragem a responsabilidade do meu ato: a humanidade me impunha esse santo dever.
REIS, M. F. dos. A escrava. In: A escrava: antologia de prosa e versos.
São Paulo: Metabiblioteca, 2021. Nesse fragmento, o ponto de vista da narradora inova na tradição observada no romance romântico, pois
A contradiz o ufanismo nacionalista vigente.
B aborda um tema deliberadamente silenciado.
C questiona a vulnerabilidade dos personagens.
D reconhece a gravidade da insubmissão às leis.
E expressa o sofrimento ante a iminência da morte.
Gabarito oficial
B
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Literatura brasileira do século XIX: reconhecer o que torna o ponto de vista da narradora inovador no Romantismo.
Resolução passo a passo
- Lembre o que o romance romântico brasileiro costumava tematizar: o indianismo idealizado, o amor impossível, a natureza, a nação. A escravidão — base real da sociedade — ficava de fora.
- Veja o que este texto faz: a narradora acolhe “dois escravos foragidos” e nomeia a situação sem rodeios, como ato de socorro a “aqueles infelizes”.
- E vai além, atacando a legislação: “lei que infelizmente ainda perdura, lei que garante ao forte o direito abusivo, e execrando de oprimir o fraco”. É denúncia explícita.
- Lembre ainda quem escreve: Maria Firmina dos Reis, maranhense, negra, autora de Úrsula — a primeira romancista brasileira, que pôs em cena aquilo que a literatura de sua época evitava. A inovação está em abordar um tema deliberadamente silenciado — alternativa B.
Alternativa por alternativa
- A
contradiz o ufanismo nacionalista vigente.
Errada. Não há ufanismo a contradizer: o texto não trata da nação, da natureza brasileira nem do passado heroico. Ele trata de duas pessoas escravizadas dentro de uma casa.
- B
aborda um tema deliberadamente silenciado.
Correta. Enquanto o Romantismo brasileiro idealizava o índio e a nação, Maria Firmina dos Reis coloca a escravidão no centro e denuncia a lei que a sustenta. É a entrada, na literatura, de um assunto que ela evitava.
- C
questiona a vulnerabilidade dos personagens.
Errada. A narradora não questiona a vulnerabilidade dos personagens — ela a constata e age em consequência, chamando-os de “desgraçados, tão abandonados, tão perseguidos”.
- D
reconhece a gravidade da insubmissão às leis.
Errada. Ela de fato reconhece o risco (“era expor-me à vindita da lei”), mas isso é a consciência do perigo, não a novidade literária. A novidade é o assunto.
- E
expressa o sofrimento ante a iminência da morte.
Errada. A “agonia derradeira” é mencionada de passagem, ao descrever a condição dos fugitivos. O trecho não se detém no sofrimento diante da morte.