Ler o enunciado em texto
Quando a porta se abriu, ouvi em tom baixo: “Não saia daí até eu voltar!”. E ela se fechou, me deixando ali, no escuro. [...]
Até que acabaram os biscoitos e a água que levamos na mochila. Bateu sede, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu fome, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu vontade de fazer xixi, mas... descobri que tinha um microbanheiro atrás de outra porta branca: um vaso sanitário, um chuveiro que por pouco não estava sobre o vaso e, em frente aos dois, uma pia com um espelho na parede acima dela. Entre o espelho e a pia, uma prateleira com um pote, um tubo de pasta de dentes e uma escova dentro. Tudo no diminutivo.
Quando ter uma empregada que dorme no trabalho passou a ser algo caro e não de muito bom-tom, os corretores de imóveis chamariam esse local da casa de “quarto reversível”, um nome para não chamar o quartinho de quartinho ou do que ele realmente era: um lugar para serviçais, criadas, babás, domésticas, amas, empregadas. Todos esses nomes que deram e dão até hoje a quem é “quase da família”. Um lugar onde estivessem ao alcance do comando de voz, do olhar, ao alcance das mãos... A tempo e hora, vinte e quatro horas por dia.
CRUZ, E. A. Solitária. São Paulo: Cia. das Letras, 2022. Nesse fragmento, ao refletir sobre aspectos da rotina de trabalho da mãe, a narradora
A demonstra a solidão do ambiente doméstico.
B revela uma concepção crítica das relações familiares.
C questiona as modificações na arquitetura dos imóveis.
D traça um perfil sensível do comportamento da classe média.
E sugere a persistência da divisão de classe no trabalho doméstico.
Gabarito oficial
E
Caderno de referência do INEP.
O que a questão cobra
Literatura contemporânea: interpretar a crítica social embutida na descrição do espaço.
Resolução passo a passo
- Comece pela descrição do lugar: um quartinho escuro, com “um microbanheiro”, chuveiro quase sobre o vaso, tudo “no diminutivo”. O espaço destinado a quem serve é reduzido de propósito.
- Passe à troca de nome. Quando a empregada que dorme no emprego ficou cara e “não de muito bom-tom”, o quartinho virou “quarto reversível” — “um nome para não chamar o quartinho de quartinho”.
- Perceba o que a narradora está denunciando: muda-se o nome, não a estrutura. E ela lista os nomes dados a quem ocupa esse lugar: “serviçais, criadas, babás, domésticas, amas, empregadas… quem é “quase da família””.
- O fecho revela a função do cômodo: manter alguém “ao alcance do comando de voz, do olhar, ao alcance das mãos… vinte e quatro horas por dia”. É a persistência da divisão de classe no trabalho doméstico — alternativa E.
Alternativa por alternativa
- A
demonstra a solidão do ambiente doméstico.
Errada. A solidão da menina trancada é o ponto de partida da cena, não a reflexão. A crítica que a narradora desenvolve é sobre a estrutura que produz aquele quartinho.
- B
revela uma concepção crítica das relações familiares.
Errada. “Quase da família” aparece entre aspas, ironicamente, para mostrar que a empregada não é da família. A crítica é a uma relação de trabalho, não às relações familiares.
- C
questiona as modificações na arquitetura dos imóveis.
Errada. A mudança de nome dada pelos corretores é o objeto da ironia, mas a narradora mostra justamente que a arquitetura não mudou — só o rótulo.
- D
traça um perfil sensível do comportamento da classe média.
Errada. Não há sensibilidade atribuída à classe média. Ao contrário: o texto expõe o cálculo de quem troca o nome do cômodo para não parecer de mau gosto.
- E
sugere a persistência da divisão de classe no trabalho doméstico.
Correta. O quartinho mínimo, colado ao serviço, sobrevive sob o nome de “quarto reversível”. A narradora mostra que o eufemismo mudou, mas a hierarquia de classe inscrita na planta da casa continua a mesma.