Nota de corte
Nota de corte de Medicina: o que aquele número realmente significa
17 de fev. de 2026
Existe um gesto que se repete todo ano. A pessoa abre o sistema, procura Medicina, vê um número maior que a nota dela e fecha a aba. A desistência leva quinze segundos e se apoia num dado que ainda vai mudar várias vezes até o prazo terminar. Antes de repetir o gesto, vale saber o que aquele número é — porque ele não é o que a maioria pensa.
A nota de corte é a nota do último aprovado
Nenhuma universidade se reúne para decidir que Medicina vai exigir tal pontuação. A nota de corte não é um requisito publicado antes: é um resultado observado depois. O sistema ordena todos os inscritos daquela oferta, da maior nota para a menor, e conta até acabarem as vagas. A nota de quem ocupou a última posição que ainda coube é o que chamamos de nota de corte.
Repare na diferença. Um piso existiria antes dos candidatos, valesse quem valesse. A nota do último aprovado só existe porque aquelas pessoas se inscreveram naquele ano. É aritmética de fila, não padrão de exigência do curso.
Daí decorre tudo o mais. O número depende de três coisas, e a sua nota é apenas uma delas: quantas vagas a oferta tem, quantas pessoas concorreram e que notas essas pessoas trouxeram. Mude qualquer uma e o corte muda. Por isso a mesma universidade tem cortes diferentes por campus e por modalidade de concorrência, e por isso comparar a nota de corte de uma capital com a de uma cidade do interior não diz nada sobre a sua chance.
Medicina não tem uma nota de corte; tem 88
Na chamada regular do Sisu 2025, a ampla concorrência de Medicina teve 88 ofertas, distribuídas por 65 universidades. São 88 filas independentes, cada uma com o seu último aprovado.
A mais alta foi a da UNILAB, em Baturité, no Ceará: 856,44. A mais baixa foi a da UFERSA, em Mossoró, no Rio Grande do Norte: 769,15. Entre uma ponta e outra há 87,29 pontos de distância. É uma diferença grande o bastante para conter quase toda a discussão sobre viabilidade: tratar Medicina como se fosse um número só apaga esse intervalo inteiro.
A mediana foi 792,76 — metade das ofertas fechou abaixo disso. E um quarto das ofertas ficou acima de 800,20, o que é outra forma de dizer que três quartos fecharam abaixo de 800,20. O patamar que circula nas conversas costuma ser o das ofertas mais disputadas, como UFRJ, no Rio de Janeiro (823,79), e UEM, em Maringá (822,62). Elas existem, mas são a borda de cima da distribuição, não o centro dela.
Na outra ponta, estas foram as oito menores notas de corte de Medicina naquela chamada:
| Universidade | Cidade | Nota de corte |
|---|---|---|
| UFRN | Natal/RN | 783,96 |
| UFPI | Picos/PI | 783,31 |
| UFBA | Vitória da Conquista/BA | 782,68 |
| UFRR | Boa Vista/RR | 782,66 |
| UEFS | Feira de Santana/BA | 780,43 |
| UFRN | Caicó/RN | 779,52 |
| UNEMAT | Cáceres/MT | 779,01 |
| UFERSA | Mossoró/RN | 769,15 |
Os pesos mudam a sua nota antes de qualquer comparação
Há um detalhe que desarruma qualquer comparação feita de cabeça: a nota que entra na fila não é a média simples das suas cinco notas do ENEM. Cada oferta aplica pesos próprios às áreas, e 52 das 88 ofertas de Medicina usam pesos diferentes entre elas. As outras dão peso igual às cinco.
| Área | Faixa de peso | Peso médio |
|---|---|---|
| Ciências da Natureza | 1,0 a 5,0 | 2,34 |
| Redação | 1,0 a 5,0 | 2,01 |
| Linguagens | 1,0 a 5,0 | 1,95 |
| Matemática | 1,0 a 4,0 | 1,47 |
| Ciências Humanas | 1,0 a 3,0 | 1,43 |
Duas pessoas com a mesma média simples podem ter notas finais bem diferentes na mesma oferta, conforme onde estão os pontos fortes de cada uma — e a mesma pessoa tem uma nota final diferente em cada uma das 88 ofertas. Comparar a sua média com um corte visto de relance é comparar grandezas distintas.
Por que o número muda todo dia
Durante a inscrição, o que se vê é o corte parcial. No primeiro dia a fila é curta e tudo parece alcançável; conforme os candidatos entram, a linha sobe. Esse é o movimento dominante, mas não é o único: quem tem nota alta se inscreve cedo, segura a linha no alto e depois migra para outra oferta — e a linha cai. As últimas horas concentram a maior parte das mudanças, e é nelas que o quadro vira mais rápido.
- Sobe quando entram muitos candidatos com nota acima da linha do momento.
- Desce quando candidatos de nota alta trocam de oferta ou de modalidade.
- Oscila mais em ofertas de alta procura e com poucas vagas, que é o caso de boa parte de Medicina.
- Só se estabiliza no encerramento, quando ninguém mais pode alterar a inscrição.
Parcial, final, histórico e a lista de espera
São números diferentes e misturá-los produz decisão ruim. O parcial é o retrato de um momento durante a inscrição e serve só para ler tendência. O final é o da chamada regular daquele ano, publicado quando tudo fechou. O histórico é a série dos finais de anos anteriores, e é ele que deve guiar o planejamento, porque mostra a faixa em que cada oferta costuma fechar.
Falta uma quarta camada, esquecida justamente em Medicina. Como as universidades convocam novos candidatos conforme desistências e matrículas não efetivadas, quem entra nas chamadas seguintes costuma ter nota abaixo do corte da chamada regular. Não há valor previsível para isso, mas há uma consequência prática: ficar acima do corte na chamada regular não é a única maneira de entrar, e desistir na primeira leitura elimina uma chance que existia.
A nota de corte é a nota de uma pessoa que passou no ano passado, numa fila que não é a sua. Ela informa, não decide.
Como usar o simulador
A forma mais direta de sair da comparação de cabeça é deixar a conta pronta para você. Na página de notas de corte de Medicina existe um simulador em que você digita as cinco notas do ENEM — Linguagens, Humanas, Natureza, Matemática e redação — e vê em quais ofertas de Medicina você teria passado, já com os pesos de cada uma aplicados.
O resultado surpreende nas duas direções. Ofertas que pareciam fora do alcance aparecem, porque o peso favorece a área em que você vai melhor; outras, tidas como acessíveis, somem pelo motivo inverso. É essa lista que deve guiar a escolha.
O erro que vem depois
Quem quer Medicina já resolveu a pergunta difícil, a do curso. Sobra a do onde — e é aí que o número volta a atrapalhar. Escolher a oferta só porque o corte é baixo, sem pensar na cidade e nos seis anos que a graduação dura, troca um problema de nota por um de permanência. O contrário também custa caro: descartar uma boa oferta por um corte alto que você nunca calculou com os pesos certos.
Em resumo: trate o corte parcial como termômetro, o histórico como mapa e a sua nota do ENEM como o único dado já garantido. Confira os pesos no edital da instituição, não em post de rede social. E, dentro das regras, inscreva-se onde você quer estudar — a linha de chegada é definida pelas pessoas que aparecerem, e você é uma delas.


