A FUVEST 2027 cobra nove obras de leitura obrigatória. Pela primeira vez, a lista é formada apenas por livros escritos por mulheres, com autoras do Brasil, de Portugal, de Moçambique e de Angola. O conjunto vai de um ensaio de 1853 a um romance de 2019.
Para quem vai prestar Medicina na USP, o número que importa vem antes dos títulos: a literatura responde por cerca de 30% das questões de Português, e isso nas duas fases. Não é matéria de apoio. É uma fatia fixa da prova, tão disputada quanto qualquer outra.
A lista em ordem cronológica
| Obra | Autora | Ano | Gênero |
|---|---|---|---|
| Opúsculo humanitário | Nísia Floresta | 1853 | Ensaio |
| Nebulosas | Narcisa Amália | 1872 | Poesia |
| Memórias de Martha | Júlia Lopes de Almeida | 1899 | Romance |
| Caminho de pedras | Rachel de Queiroz | 1937 | Romance |
| A paixão segundo G.H. | Clarice Lispector | 1964 | Romance |
| Geografia | Sophia de Mello Breyner Andresen | 1967 | Poesia |
| Balada de amor ao vento | Paulina Chiziane | 1990 | Romance |
| Canção para ninar menino grande | Conceição Evaristo | 2018 | Romance |
| A visão das plantas | Djaimilia Pereira de Almeida | 2019 | Romance |
Do que trata cada uma
- Opúsculo humanitário: Nísia Floresta defende, em forma de ensaio, a educação feminina como caminho para o desenvolvimento social. O texto também se volta contra a escravidão e o patriarcado.
- Nebulosas: poemas românticos de Narcisa Amália. Introspecção e melancolia convivem com abolição, condição da mulher e ideais republicanos.
- Memórias de Martha: romance realista de Júlia Lopes de Almeida em que a narradora reconstrói a própria ascensão pela educação, a partir da pobreza.
- Caminho de pedras: nos anos 1930, militantes políticos se organizam contra o governo de Getúlio Vargas. O romance é modernista e a autora é Rachel de Queiroz.
- A paixão segundo G.H.: em um apartamento no Rio de Janeiro, uma mulher atravessa uma experiência introspectiva intensa. Clarice Lispector trabalha o fluxo de consciência.
- Geografia: poemas da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, que vão do espaço e das paisagens à história das conquistas e à opressão durante o Estado Novo português.
- Balada de amor ao vento: romance da moçambicana Paulina Chiziane, que acompanha uma relação amorosa ao longo da vida e se apoia na tradição oral africana.
- Canção para ninar menino grande: romance de Conceição Evaristo que expõe a fragilidade emocional de um homem por meio das relações que ele mantém com mulheres.
- A visão das plantas: Djaimilia Pereira de Almeida, autora nascida em Angola e radicada em Portugal, põe um antigo traficante de escravos a envelhecer e encarar a morte enquanto cuida de um jardim.
Onde achar os textos
Opúsculo humanitário e Memórias de Martha estão disponíveis gratuitamente na internet. As demais têm edições comerciais e costumam existir em bibliotecas públicas. Vale resolver esse levantamento cedo: descobrir em setembro que falta um livro é perder semana por motivo logístico.
Por que a lista costuma ficar para depois
A rotina de quem quer Medicina tem uma ordem quase automática: Biologia, Química, Física e depois o resto. Literatura ocupa o último lugar dessa fila porque parece uma matéria de retorno lento. O cálculo está errado por dois motivos.
O primeiro é de peso. Se a literatura vale perto de um terço das questões de Português e aparece nas duas fases, ela não é um detalhe de Humanas: é um bloco de pontos do mesmo tamanho dos outros. O segundo é de prazo. Biologia se recupera com revisão intensiva; nove livros, não. Leitura tem um tempo mínimo que não comprime, e quem empurra tudo para outubro chega à prova com resumo de terceiro, não com leitura.
Some a isso o modo como as bancas costumam perguntar. Elas relacionam as obras a temas atuais, e perguntas sobre detalhes do enredo aparecem com menos frequência. Isso derruba a estratégia de decorar resumo. O que se cobra é leitura capaz de dialogar com contexto, e esse tipo de resposta só se constrói lendo.
Se você divide o ano entre a FUVEST e o ENEM, trate as duas notas como grandezas separadas, porque são. As notas de corte de Medicina no Sisu vivem em outra escala e não dizem nada sobre o corte da carreira na USP.
Um calendário possível
Distribua as nove obras até outubro e comece pelas que exigem leitura mais lenta: o romance de Clarice Lispector e os dois livros de poesia. São os textos que menos aceitam pressa e os que mais rendem quando lidos com calma no primeiro semestre.
Depois de cada leitura, registre três coisas em meia página: quem narra, em que contexto histórico o texto se situa e dois ou três temas que ele ainda toca hoje. Essa meia página é o material de revisão de outubro. Reler nove livros no fim do ano não vai acontecer, e não precisa acontecer se a anotação existir.
Repare também na distância entre os extremos da lista. Do ensaio de 1853 ao romance de 2019 há quase dois séculos de língua portuguesa, e a dificuldade de leitura varia muito nesse intervalo. Nísia Floresta e Narcisa Amália pedem um tempo de adaptação que Djaimilia Pereira de Almeida não pede. Planejar por número de páginas, sem considerar isso, produz um cronograma que não se cumpre.
Por fim, resolva questões de edições anteriores da própria FUVEST. Elas mostram como a banca costura texto e contexto e revelam rápido se a sua leitura foi funda o suficiente. A lista oficial e o edital ficam no site da FUVEST.


